quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Prêmio Nobel

As águas, o céu, os olhos. Tudo era azul na Escandinávia. Da janela do trem, os cervos pastavam e, pelos parques, atravessavam o nosso caminho entre saltos. Os tetos, pinheiros e nuvens atiravam-se inadvertidos na profundidade dos lagos, e se espe/alhavam, liquidos, como os sóis de Munch. A sombria arte dinamarquesa e toda a inquietude do parque Vigeland chocavam-se com a claridade fria que brilhava sobre o outono. Ah, Estocolmo, Växjö, Copenhagen, Oslo!.. Se não fosse o preço da cerveja, eu me mudava praí! (03 de outubro de 2013)

domingo, 15 de setembro de 2013

O ponto de vista dos caleidoscópios

A primeira vez que ouvi a expressão foi a caminho do aeroporto de Lyon, anos atrás. Era uma francesa muito bonita, com ares de alemã e o charmoso nome de Cloë (com o trema de que ela se orgulhava tanto) que me contava que o namorado a havia “laissé tomber”. Primeiro, fiquei estupefata: como alguém poderia terminar com uma moça como ela, que, ainda por cima, era extremamente gentil? Em seguida, fiquei pensando nesse jeito de se referir ao fato: “laisser tomber” quer dizer, literalmente, “deixar cair”. Recentemente, conheci um sinônimo: “larguer”, idêntico ao empregado em português: “ele/ela me largou.” Muito imagéticas as expressões. Por que não é, no fim, isso mesmo que acontece? Como se, escalando uma montanha muito íngreme, alguém soltasse a sua mão, você sentisse subitamente aquela ausência do peso que o sustentava, e passasse à leveza do vazio, ao desequilíbrio e, claro, à queda? “Ele me deixou cair” é muito mais emblemático do que o “ele terminou comigo” do português, porque, a princípio, a ideia é dizer que o cidadão “terminou um relacionamento comigo”, ou seja, é o relacionamento o objeto direto do término. Obviamente, no entanto, se o objetivo for a dramaticidade, dizer que alguém terminou com outra pessoa pode significar que a destruiu, destroçou, reduziu a pó. Gosto de pensar também em como os franceses se referem ao ato de se apaixonar: “tomber amoureux/amourese”: cair apaixonado. É semelhante ao inglês, que, neste caso, consegue ser ainda mais sugestivo: “fall in love” é simplesmente “cair no amor”. Como se este fosse um buraco, um precipício, um fosso repleto de areia movediça, onde se perde aos poucos o domínio dos movimentos, o oxigênio, e se pode cada vez mais afundar. Pois se, no amor, do começo ao fim, tudo é sempre uma questão de queda, gosto de pensar no verbo correspondente em espanhol: “caerse” é algo que se faz a si mesmo, sendo possível, assim, ao menos, dosar o tamanho do tombo. Teoricamente, é claro. *** Pensei nesse assunto enquanto relia “Sem Ana, blues”, um conto do Caio Fernando Abreu, autor de quem gostei muito no final da adolescência. O texto é uma das melhores descrições de fossa pós-término que já vi, competindo com canções como “Eu te amo”, do Chico, “Jumping my shadow”, do Skyclad, “Atrás da porta”, na voz da Elis Regina. Como, hoje em dia, nesses quesitos, eu prefira o bom humor de uma Clarice Falcão e músicas como “Uma canção sobre o amor”, o texto me serviu para refletir sobre outra forma de encontro amoroso: aquele com o nosso idioma materno. Tenho lido a maior parte do tempo em francês, escrito em inglês para congressos, e de repente o sabor de um conto literário em português caiu como uma luva para este domingo em que, depois de dias de chuva, o sol deu as caras num céu lavado e muito azul. Depois ele também foi embora, “nos largou”, mas aí já estávamos nos divertindo com palhaços, carrosséis e acrobatas, no Museu das Artes de Feira, que só abre em datas especiais – como hoje. (15 de setembro de 2013.)

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

So let it be rock

Foi um amigo quem me deu o ingresso para o show de Madball, Downset e Biohazard, umas semanas atrás. Pulei muito nos dois primeiros, mas, no terceiro, para fugir dos moshes violentos do público – tinha gente até com protetor bucal, para você ter uma ideia -, fui me sentar numa grade de proteção, de onde tinha uma visão superprivilegiada e próxima do palco. Foi aí que eu bocejei. Eu sei, era um concerto de rock, ninguém esperava aquilo de mim, mas foi mais forte que eu, desculpe. Quando olhei para a plateia, um rapaz me encarava, estarrecido. Ele agitou a cabeça e o indicador, num gesto negativo, depois moveu os braços para cima, ensinuando que eu precisava me animar e curtir o show. Ele, claro, tinha toda a razão, e passou o resto da apresentação conferindo, vez por outra, se eu estava mesmo “agitando”. Acabei me entusiasmando tanto que, quando me dei conta, estava sentada em cima da caixa de som, praticamente sobre o palco, e o guitarrista solava olhando diretamente para mim – cena que se repetiu algumas vezes, até ele pegar a minha mão e beijá-la docemente, como um cavalheiro. Quando o concerto acabou, pulei no palco, acompanhei um menino de uns doze anos que, tímido, tentava se aproximar do vocalista, conversei com ele, ganhei duas palhetas e um abraço apertado do baixista que, vim a saber, é um conhecido ator pornô. Tenho as fotos para provar. E este foi só o começo de uma sequência sensacional de shows de rock, que povoou agosto, o mês do meu aniversário no meu ano parisiense. Exatamente no dia 23, minha data querida, Belle and Sebastian (ah, minha adolescência...), Tomahawk (rever o Mike Patton, sempre um prazer à parte!) e Franz Ferdinand se apresentaram no Rock en Seine, junto a atrações ditas menores, mais ainda muito empolgantes, como Johnny Marr, o ex-guitarrista dos Smiths, que nos brindou com canções dos velhos tempos, como a adorável “There´s a light that never goes out”. No dia 25, foi a vez do System of a Down, e de uma apresentação de pura energia, em que os caras emendavam uma música à outra e só dava tempo de se sentir alegre. Quando estive em Londres, conheci uma inglesa muito divertida, com uma tatuagem muito bem feita de um alien no ombro, que me acompanhou aos pubs da cidade, e que me disse ser roqueira por saber que o rock nunca nos deixa para trás, nunca nos abandona. Tenho a mesma sensação. É uma das minhas melhores companhias. E é como se ele se presentificasse nos concertos, verdadeiras experiências epifânicas às vezes. Hoje é a vez dos Deftones, banda que ouvia muito pouco, mas a que decidi dar uma segunda chance graças aos comentários elogiosos da Anneke. Ela, outro dia, postou uma foto tirada do meio da plateia, em um show deles a que esteve presente, e escreveu: “Incrííííivel Deftones!!!”. Bom sinal, alors! (06 de setembro de 2013)

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

O último bar antes do fim do mundo

Descobri um bar em Paris chamado “O último bar antes do fim do mundo”. (Um amigo, que está prestes a retornar ao Brasil, disse que, na véspera da partida, vai lá tirar uma foto, segurando o bilhete de volta...) É um lugar para nerds e geeks, onde só se toca rock, música de video game e trilha sonora de anime. (Quando estava lá, por exemplo, morri de euforia ao ouvir um dos temas dos “Cavaleiros do Zodíaco”.) A decoração inclui Gremlins (aquelas fofuras que viram monstros quando em contato com a água) e Totoros (da animação do Miyazaki). Para completar, há um amplo acervo de jogos de tabuleiro, livros de RPG, histórias em quadrinhos e mangás à disposição dos frequentadores – que, diga-se de passagem, são bem mais simpáticos do que o habitual. O pessoal da mesa ao lado até me convidou para jogar uma partida de qualquer coisa com eles, um gesto nada parisiense. E, como se não bastasse, ainda vendem cerveja lá! É o paraíso. Quando eu frequentava o conservatório, conheci uma pianista, de nome muito bonito, que se destacava para mim por ter algo de Madame Bovary. Ela era uma grande amiga da minha professora de piano, que, certa vez, mostrou-me um álbum de fotografias, uma espécie de book, da primeira. Eram fotos belíssimas – ela tinha um sorriso invejável e olhos de um verde muito particular. Mas havia uma nebulosidade em cada uma daquelas imagens, não importava a largura do sorriso ou a quantidade de dentes alinhados. Então, minha professora explicou que, naquele dia, o noivo – médico com nome de compositor alemão, o dos Nibelungos - rompera com ela um namoro de sete anos. Ela estava absolutamente arrasada e a sessão de fotos fora uma tentativa de reanimá-la – talvez no sentido original, de trazer-lhe novamente a alma. No último domingo, eu também estava triste, e um amigo fotografou-me à beira do Sena, tentando alegrar-me – assim como, anos atrás, outro amigo fizera, com três barras gigantes de Laka e um CD de músicas latinas. Depois fomos ao tal bar, e bebemos até o horário do último metrô. Talvez não fosse, afinal, o fim do mundo; só o primeiro dia depois do fim. PS.: Fui surpreendida esta manhã com o e-mail de um amigo que não vejo há muito tempo, de Lavras. O título era "Every sun is fragile". Ele se referia ao novo álbum do Autumnblaze. Mas, ao mesmo tempo, a afirmação faz todo o sentido. Every sun is fragile. (07 de agosto de 2013.)

terça-feira, 16 de julho de 2013

Ritornello

Depois de tomar uma Guinness em um autêntico pub irlandês, tirar uma foto ao lado da estátua descontraída de Oscar Wilde em Merrion Square e dormir no chão de Londres, fui para a Itália, subir trezentos e vinte degraus até o topo da Basílica de São Pedro. Roma foi uma asfixia: o calor de quarenta graus, a horda de turistas ensimesmados, as caminhadas intermináveis e o sufoco de estar sob o peso de tantos séculos de História. As ruínas, as termas, o Coliseu, a arte antiga, as igrejas e tanto ouro revestindo suas paredes, a luz colorida dos vitrais, os órgãos em sua magnificência de tubos, o enigma de cada quadro da Capela Sistina. A beleza cinematográfica das praças, parques, das esculturas, a Fontana de Trevi, tão felliniana, lembrando a todo o momento o quanto a vida pode ser doce. E, depois, num domingo de abençoada chuva, os estúdios da Cinecittà e o fascínio de estar diante do figurino de Claudia Cardinale em “Era uma vez no oeste”. Mas Roma foi ainda mais que isso: foi o prazer de estar com duas amigas brasileiras, que conheci em Paris, uma antropóloga e uma historiadora, escolta perfeita para uma visita contextualizada aos museus; confidentes, companheiras, nós nos unimos por um mote: allons que allons! E, assim, nós fomos! Tomamos o trem, embevecidas com os campos de girassóis e a paisagem sem adjetivos da Toscana, e chegamos até Florença. E então eu me paraliso para um longo suspiro. Ahhhhh... Florença! As ruas, a arquitetura, o sorvete, a bisteca fiorentina do “Mário”, o pôr-do-sol na praça Michelangelo, tomando chianti e comento cantucci, e rindo muito de uma série de piadas internas que, por muito tempo, só a gente vai entender – porque depois, é possível, nem a gente. :) E em Florença está o David, estátua pela qual merecidamente se derrete de amores, e o paraíso estético da galeria Uffizi. Todo mundo está lá!! Boticelli, Rubens, Tiziano, Caravaggio, Leonardo da Vinci, Rafael Sanzio, Brueghel... Chega a ser estafante de tão bonito. A impressão que fica é a de que é preciso voltar, passar uma tarde inteira em cada sala; voltar, aliás, à Itália, onde todos os dias são domingo, o domingo da macarronada e da família – barulhenta! – reunida, das escadas rolantes vagarosas, em que ninguém ultrapassa ninguém, porque a vida é para ser experimentada como uma refeição de muitas horas e diversos pratos. (16 de julho de 2013).

sábado, 1 de junho de 2013

Portugal: minha grande madeleine

Sempre que falam em comida de mãe, eu penso nas quitandas que faz minha Madrinha, uma pessoa incrível, que entra para o Top 5 dos meus grandes amores. Minha mãe me fez querer ser forte; meu pai, a buscar a inteligência; mas, se há alguma doçura em mim, foi minha Madrinha quem me emprestou. Passou a vida criando filhos, netos, sobrinhos, com paciência e mãos de fada para a cozinha. Cada um de nós tem a sua quitanda preferida: brevidade, bolo de fubá, broa, biscoito de nata... Quando eu era pequena, e ela cuidava de mim enquanto meus pais estavam no trabalho, eu contava os minutos para o café da tarde – literalmente. Uma vez, disse a ela: “já está na hora, Madrinha!” E ela explicou que tomávamos café às 15h, que eram ainda 14h. Sentei-me na cama dela, de frente para o rádio-relógio, e fiquei uma hora inteira vendo os minutos se passarem, os números se transformarem, como diante de uma ampulheta vermelho-brilhante. Essa é até hoje, de todas, a minha maior gula. Posso ficar sem sobremesa pelo resto da vida, mas não me deixe sem café com bolo! E quando, dias atrás, tive a oportunidade de visitar a terra dos nossos colonizadores, senti uma imensa alegria ao descobrir de onde vinham as receitas deliciosas da minha Madrinha. Os doces típicos portugueses, como o “travesseiro”, que se come em Cintra, têm a massa, a cobertura de canela e açúcar, tradicionais no interior de Minas. Foi como a madeleine do Proust, só que em muitas formas e sabores: no peixe que meu tio Jair pescava e levava de presente para minha mãe, no arroz-doce que minha avó fazia e que meu pai adorava, nos pasteis-de-Belém e afins, tão parecidos com as receitas da minha Madrinha. Pensei neles o tempo todo. Porque as belezas ficam mais bonitas quando nos evocam as pessoas que amamos. E quantas belezas há em Portugal! Em Cascais, em Porto, no rio Tejo, em Alcochete, em Lisboa, no Cabo da Roca – lugar em que me esqueci de todos os meus arrependimentos e onde entendi por que os portugueses, naquele sotaque melífluo, dizem que o mar é deles. Foi uma viagem de reencontros: com importantes amigos e fundamentais lembranças. Fez bem – faz bem a saudade. Voltei para casa com um quilo a mais de leveza. (01 de junho de 2013.)

quarta-feira, 22 de maio de 2013

Cada um com sua Pasárgada...

Me encantan as bandeiras amarelas e vermelhas pelas fachadas, lembrando-me de que estou outra vez na Espanha, seis anos depois. Muita coisa mudou nesse tempo, para bem além da cor dos meus cabelos. O espanhol agora está mais melancólico, tocando pela rua tangos argentinos. “Fizeram de nós um grande parque de recreação”, desabafou uma espanhola de Valladolid, que deixou por lá a família e o namorado para trabalhar como enfermeira em Barcelona. Ouvi queixas sobre a precariedade do sistema de saúde, os preços das universidades paradoxalmente públicas, sobre as condições de trabalho, os salários atrasados, as aposentadorias tardias, as incertezas acerca do futuro. E, para onde quer que se vire, tudo é magnífico: as casas, os monumentos, a arquitetura, os grandes generais sobre seus cavalos de patas erguidas. O prédio dos correios, por exemplo, é impressionante. Investiram tanto em turismo que, hoje, falta dinheiro para se construírem escolas e hospitais. E é interessante observar o espaço que ocupa agora o Brasil diante dessa quebra de expectativa europeia: procurando um presente para o meu irmão, na loja do Barça, um vendedor muito simpático me explicava os diferentes modelos de camisa, pensando que eu era argentina. Quando falei que era brasileira, ele se entusiasmou: “oye, dizem que no Brasil há muito emprego, verdad?” Eu não sabia o que responder. Porque, sim, há emprego, mas estamos longe da Pasárgada de Bandeira. Há também muita violência, muita corrupção, muita desigualdade social, muita desorganização. Outro dia, um francês me dizia temer que, apesar de todo o progresso, a falta de ordem pusesse tudo a perder no Brasil. E infelizmente ele está certo. Toda a ostentação com a Copa de 2014 e as Olimpíadas de 2016 pode vir a ser o estopim da derrocada. E, daqui a poucos anos, estaremos encarando nossos belos estádios como a relíquia de um tempo em que parecíamos, para o mundo, inclusive o velho, um ponto de fuga perfeito. * Mas, escrevendo assim, faz parecer até que estou triste. Impossível. Acabo de voltar do Parque Güell, que é o máximo do modernismo catalão, e onde estão algumas das obras mais bonitas de Antoni Gaudí. Ontem, visitei a Igreja da Sagrada Família e o Camp Nou, o estádio do Barcelona, um espetáculo à parte. Antes havia estado em Valência, onde pude ir ao campo assistir a uma partida da primeira divisão do futebol espanhol, entre Levante e Rayo Vallecano, passear pela inacreditável Ciudad de las Artes y las Ciencias, ver o Real perder a Copa do Rei para o Atlético de Madrid – um acontecimento histórico! – tomando água de valência e comendo polvo asturiano. E o melhor de tudo: nesta viagem, pude reencontrar amigos que não via há muito tempo, descobertas de viagens anteriores, que se tornaram ainda mais queridos, apresentando-me novos sabores de tapas, outras pessoas gentis, lugares increíbles nessa Espanha tão guapa, que espero em breve ver feliz de novo. (22 de maio de 2013.)