segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Voltar

Voltar é muito mais do que descer do avião, tirar da mala coisas e as histórias que elas contam. É, em primeiro lugar, mais do que estar aqui, não estar lá. É recolher da carteira documentos e notas que não servem mais, cartões de biblioteca, velhos tickets de cinema, filmes vistos na companhia de pessoas que não mais o acompanharão. É ouvir a todo o momento a sua própria língua e travá-la quando cruzam-lhe expressões que são da outra, daquela que a custo quase chegou a ser familiar. Voltar é se lembrar que faz calor, e muito, e que as pessoas por isso se vestem como se se despissem, exalando um tom de pele que é quase um delito, uma depravação. É perceber que existem cores, muitas, e que elas se arregalam à luz do sol. É de novo saber que as frutas têm gosto, cheiro e não apenas um nome marcado na etiqueta com o preço. É redistribuir as ruas no mapa mental da cidade. É revê-las, recaminhá-las e encontrar lugares que não estão mais lá. Voltar é descobrir que seus amigos ainda o amam, mas ainda assim se atrasam, e verificar na prática da espera que se o Google Maps indica um trajeto de uma hora e meia, é porque não conhece a destreza veloz dos motoristas de BH. Voltar é revisitar a Lagoa como se fosse o mar, e olhar do alto da Contorno a avenida Afonso Pena como quem admira a Champs-Elysées. Porque voltar é um exercício lento e doloroso de ressignificação – do espaço, de si e do sonho. (17 de fevereiro de 2014

sábado, 25 de janeiro de 2014

A TESE

A tese é um monstro que a gente alimenta com palavras, e vão lhe crescendo cabeças e surgindo bocas. E é preciso se ter muito cuidado, porque cada novo parágrafo, nova teoria, pode ser uma fileira de dentes afiados prontos a devorá-lo, entre a baba verde do superego acadêmico, em uma banca de defesa ou de qualificação. Pois é por isso que, escrevendo a tese, acabei subnutrindo o blog. Um velho amigo apareceu esses dias, inclusive, para saber se eu estava viva, já que quase não envio e-mails e porque a última atualização datava de meados de novembro. Nesse meio tempo, muita coisa aconteceu: fui a um jogo do Paris Saint-Germain, a um show do DAF numa festa da embaixada alemã, comecei o ano novo em Berlim e tomei cerveja com o The Gathering em Paris. Mas tudo isso, e algo mais, eu conto ao vivo, entre um copo de Serra Malte e uma porção de torresmo, no Churrasquinho do Manuel, daqui a pouco – "trop" pouco, aliás. (25 de janeiro de 2014).

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Voadora

Era um barco no Mediterrâneo, permeando os calenques de Marseille, próximo ao Castelo de If (o do Conde de Montecristo). Uma tarde clara de agosto, a água salgada molhando o vestido na violência de certas ondas. Meus amigos estavam em pé, atentos, saboreando famintos o passeio. Eu não estava mareada, mas sentia o que tradicionalmente experimento depois de sete dias de litoral: “já deu!” – mesmo sendo as praias azuis da Côte d´Azur. Passei a prestar atenção, assim, nas pessoas ao meu redor. Foi quando escutei três pré-adolescentes que conversavam: Pré-adolescente 1: Por que ele te deu aquela voadora? (sim, era em Português, diria mais, em “Brasileiro”, com direito à palavra “voadora”, que eu pensava que nem se usava mais). P-a 2 (contrariado): Pra começar, nem foi uma voadora... O terceiro não falava, só sorria, divertido com o assunto. P-a 1 (desafiador): Ah, não foi, não!? O cara meteu os dois pés no seu peito... P-a 2 (científico): Que dois pés, véi? Isso nem existe... Nem dá pra fazer isso... P-a 1: Mas cê voou longe! Por que que ele fez aquilo? P-a 2 (ainda contrariado, esperando que mudassem de assunto): Nem foi por querer... P-a 1 (incrédulo): Ah, não? E como é que alguém mete os dois pés no peito do outro sem querer? P-a 3 (na torcida, provocativo): É... como? Houve uma pausa curta. E: P-a 2 (resoluto, encarando P-a 1): Olha, quem foi que levou a voadora? Fui eu ou você? P-a 1: Você!! P-a 2: Então, eu é que sei! A discussão terminou ali. Fiquei fascinada. Porque me lembrava exatamente as conversas que ouvia entre os meus colegas na época em que eu também era pré-adolescente, ou mesmo os comentários dos meus ex-alunos pouco tempo atrás. E adorei o menino fechar o assunto com esse argumento de que se utilizam muitos repórteres e pré-vestibulandos em dissertações. Quem pode ser mais especialista num determinado assunto do que quem viveu a situação? E o garoto, a seu modo, virou a mesa, mas paradoxalmente – afinal, não há orgulho algum em se levar uma voadora, ainda mais com os dois pés do oponente no seu peito. O resto da viagem ficou até mais divertido depois dessa pérola da pré-adolescência. (18 de novembro de 2013)

domingo, 3 de novembro de 2013

Diferentes tons de espetáculo

Sexta passada, fui a um show de rock como quem vai ao cinema: conferi o horário da sessão, tomei um banho, troquei de roupa, peguei o metrô, fiz fila, mostrei meu bilhete, comprei um “demi” (como quem compra um pacote de pipocas), troquei meia dúzia de palavras fiadas com uma moça na entrada, encontrei uma boa posição diante do palco, como se fosse de uma grande tela. Tocou a banda de abertura, uma espécie de sequência de trailers e publicidades, que retardam a chegada do filme. Então faz-se escuro, surgem os músicos, um a um, posicionando-se, e você sabe que o espetáculo irá começar. Eu me refiro ao show do Antimatter, grupo discidente do Anathema, que tocou no Divan du Monde, no último dia primeiro. O estranho foi que tudo continuou da mesma maneira, como um filme. O público não se movia, não cantava, não se manifestava. Em geral é assim por aqui e, em determinados momentos, isso é muito frustrante. É como se a plateia assistisse a uma orquestra e esperasse o fim da sinfonia para aplaudir. Eu era a única pessoa que movia os lábios acompanhando a letra das canções – porque, se cantasse em voz alta, certamente me pediriam silêncio. Até aí tudo bem, questões culturais, a gente entende. O problema foi que a banda retribuiu a gentileza e sequer olhou para o público. Tocaram como zumbis e, quando começavam a minha música favorita, ouviu-se um inacreditável “no, no, no, guys! Stop!” Era o toque de recolher para a entrada do grupo seguinte, “Swallow the sun”. Eles não discutiram. Desvencilharam-se de seus instrumentos, disseram um discreto “merci”, recolheram todas as palhetas (claro que eu, na primeira fila, ansiava tantalicamente por uma delas para compor minha coleção) e desapareceram. Fiz o mesmo. Do lado de fora, chovia; eu havia esquecido o celular em casa e não pude tirar sequer uma foto. Sem dúvida, o Antimatter, para mim, ficou com muita cara de anticlímax. *** Uma semana antes, porém, no Nouveau Casino, tive a honra de rever – pela quarta vez! – Anneke van Giersbergen, numa postura muito mais rock do que nas aparições mais recentes, tocando integralmente o último álbum, “Drive”. Os cabelos profundamente vermelhos, a voz ainda impecável, a jaqueta preta de couro, no entanto, não escondem o fato de que a moça está cada vez com mais ares de popstar. Não é uma crítica: ela deixou o The Gathering porque queria, justamente, fazer outro tipo de trabalho. As canções são deliciosas de dançar, os refrões têm aquele jeito saboroso de grudar na língua da gente, mas não vou negar: dá muita saudade do tempo de “Nightime birds” ou do “Mandylion”. Mas fazer o quê? Como entoam quase todas as músicas da nova fase da cantora, o jeito é “to live on”... Afinal, “we start today”... *** Today, graças ao namorado de uma amiga, que nos presenteou com duas entradas, fomos assistir à final do Paris Open de tênis. Eu só conheço do esporte o que aprendi com o vídeo game, mas foi uma experiência extraordinária estar no Palais Omnisport de Paris, em Bercy, assistindo a uma partida entre dois dos melhores tenistas do mundo, David Ferrer e Novak Djokovic. Percebo que o meu vício por futebol me impediu, por tantos anos, de enxergar a beleza na agilidade das raquetes. O que mais será que eu perdi? Vou prestar mais atenção aos outros esportes, nas Olimpíadas de 2016... (03 de novembro de 2013.)

sábado, 26 de outubro de 2013

Praga e o Lobo Mau

Um dos ensinamentos de infância que a gente desconstrói ao longo da vida é aquele do “não conversar com estranhos”, porque, passada a fase em que seus amigos são representados pelos primos e pelos filhos dos amigos dos seus pais, é impreterível falar com desconhecidos para que eles passem a ser conhecidos e, quem sabe, tornem-se amigos seus. Quando se viaja, essa lição, de que também era adepta a mãe da Chapeuzinho Vermelho, é ainda mais posta em prova. Em um território diferente, é preciso dar um voto de confiança aos desconhecidos. Foi por isso que, quase sete anos atrás, comecei a participar do Couchsurfing, que é uma comunidade de viajantes que ajudam viajantes: oferecem um café, um almoço, um passeio pela cidade e até mesmo um canto para dormir, gratuitamente. Ao longo desse tempo, conheci muita gente interessante, fiz amigos, descobri lugares incríveis que só um nativo poderia apresentar, e vivi até uma relação amorosa duradoura – que dura até hoje, embora em outro formato. Mas, claro, às vezes a gente tem que lidar com situações complicadas. Foi o que aconteceu na minha viagem a Praga. Assim que cheguei à casa do meu “host”, não tive como não me sentir desconfortável: pilhas e pilhas – de louça a ser lavada, de roupa suja, de sapatos – decoravam o lugar. Ele explicou que não tinha máquina de lavar e que, por isso, não teria lençóis limpos para me oferecer, e que eu teria que dormir na cama (desarrumada) em que a filha dele, de cinco anos, dorme quando vai visitá-lo. Em seguida, comeu o pedaço de um pão com mel que a menina havia deixado em cima da mesa, quando saíram, pela manhã. Tudo bem, eu pensei, não sou nenhum fiscal sanitário, posso aguentar um dia ou dois assim, vou passar a maior parte do tempo fora de casa mesmo. Então ele foi tomar um banho. E foi aí que comecei de fato a me sentir desconfortável: quando ele saiu do chuveiro com uma toalha vermelha amarrada na cintura; nothing else. É a casa dele, ele tem o direito, pensei, enquanto ia o mais depressa possível para outro cômodo, justamente o do chuveiro. A porta não trancava. Tomei um banho – também desconfortável – e voltei para a sala (que também era o quarto), onde ele continuava com o modelito “toalha-vermelha-amarrada-na-cintura”. Só que agora ele enrolava um cigarro de maconha (que é praticamente legalizada na República Tcheca) e tomava alguns tragos de vodca. Então começou a falar que terminara um relacionamento há pouco tempo, que estava muito feliz com a minha companhia, quis saber se eu tinha namorado, e deu início a uma interminável referência a mulheres. Se eu elogiava o guarda-roupa, ele dizia que queria fazer uma sessão de fotos ali, mas que modelos são tão caras... Se eu começava a falar de um filme, ele falava da atriz principal. Fomos a um bar, ele falava da garçonete. Depois, em outro, ele convidou um colega para se sentar conosco, e os dois passaram em falar em tcheco – sem legenda! (o que me impossibilitou de saber se o assunto continuava sendo mulher). Eram cerca de duas da manhã, eu estava cansada, ele estava embriagado, nós teríamos que caminhar cerca de cinquenta minutos de uma trajeto inóspito até a casa dele, e, claro, eu desconfiava das intenções do sujeito. Foi então que me virei e olhei para a mesa atrás de mim: dessas mesas baixas, como de centro de sala de estar, com um sofazinho ao redor, cheia do que se via serem jovens amigos. Um deles me sorriu. Foi a deixa de que precisava. Agarrei minha taça de vinho branco, dei meia-volta e disse: “Vocês falam inglês? Então posso me sentar com vocês?” Eles eram todos muito simpáticos; dois haviam morado no Brasil, e um deles havia sido jogador do América de Natal! Foi justamente a este que me reportei, quando o meu “host”, dada a partida do colega tcheco, viera se sentar conosco e começara a falar alto e a entoar canções que desconheço também num tom de voz acima do desejável. O pessoal começou a se preocupar com a minha integridade, e eu disse ao ex-jogador do América: “se houver algum problema hoje e eu precisar de outro lugar para ficar amanhã, posso entrar em contato com você?” Ele respondeu: “mas por que esperar haver um problema hoje? Há um quarto absolutamente vazio na minha casa. Nós buscamos suas coisas agora e você fica lá.” De fato, ele tinha um quarto vazio, uma colega de apartamento supergentil, que fazia brownies, e se revelou a melhor companhia possível para conhecer Praga. Meu “host” pareceu um pouco desapontado quando tomamos um táxi, fomos até a casa dele resgatar minha bagagem, mas estava muito bêbado para reagir, coitado. E foi assim que fui salva, por adoráveis desconhecidos, das terríveis garras do Lobo-Mau-de-toalha-vermelha-amarrada-na-cintura. (26 de outubro de 2013)

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Prêmio Nobel

As águas, o céu, os olhos. Tudo era azul na Escandinávia. Da janela do trem, os cervos pastavam e, pelos parques, atravessavam o nosso caminho entre saltos. Os tetos, pinheiros e nuvens atiravam-se inadvertidos na profundidade dos lagos, e se espe/alhavam, liquidos, como os sóis de Munch. A sombria arte dinamarquesa e toda a inquietude do parque Vigeland chocavam-se com a claridade fria que brilhava sobre o outono. Ah, Estocolmo, Växjö, Copenhagen, Oslo!.. Se não fosse o preço da cerveja, eu me mudava praí! (03 de outubro de 2013)

domingo, 15 de setembro de 2013

O ponto de vista dos caleidoscópios

A primeira vez que ouvi a expressão foi a caminho do aeroporto de Lyon, anos atrás. Era uma francesa muito bonita, com ares de alemã e o charmoso nome de Cloë (com o trema de que ela se orgulhava tanto) que me contava que o namorado a havia “laissé tomber”. Primeiro, fiquei estupefata: como alguém poderia terminar com uma moça como ela, que, ainda por cima, era extremamente gentil? Em seguida, fiquei pensando nesse jeito de se referir ao fato: “laisser tomber” quer dizer, literalmente, “deixar cair”. Recentemente, conheci um sinônimo: “larguer”, idêntico ao empregado em português: “ele/ela me largou.” Muito imagéticas as expressões. Por que não é, no fim, isso mesmo que acontece? Como se, escalando uma montanha muito íngreme, alguém soltasse a sua mão, você sentisse subitamente aquela ausência do peso que o sustentava, e passasse à leveza do vazio, ao desequilíbrio e, claro, à queda? “Ele me deixou cair” é muito mais emblemático do que o “ele terminou comigo” do português, porque, a princípio, a ideia é dizer que o cidadão “terminou um relacionamento comigo”, ou seja, é o relacionamento o objeto direto do término. Obviamente, no entanto, se o objetivo for a dramaticidade, dizer que alguém terminou com outra pessoa pode significar que a destruiu, destroçou, reduziu a pó. Gosto de pensar também em como os franceses se referem ao ato de se apaixonar: “tomber amoureux/amourese”: cair apaixonado. É semelhante ao inglês, que, neste caso, consegue ser ainda mais sugestivo: “fall in love” é simplesmente “cair no amor”. Como se este fosse um buraco, um precipício, um fosso repleto de areia movediça, onde se perde aos poucos o domínio dos movimentos, o oxigênio, e se pode cada vez mais afundar. Pois se, no amor, do começo ao fim, tudo é sempre uma questão de queda, gosto de pensar no verbo correspondente em espanhol: “caerse” é algo que se faz a si mesmo, sendo possível, assim, ao menos, dosar o tamanho do tombo. Teoricamente, é claro. *** Pensei nesse assunto enquanto relia “Sem Ana, blues”, um conto do Caio Fernando Abreu, autor de quem gostei muito no final da adolescência. O texto é uma das melhores descrições de fossa pós-término que já vi, competindo com canções como “Eu te amo”, do Chico, “Jumping my shadow”, do Skyclad, “Atrás da porta”, na voz da Elis Regina. Como, hoje em dia, nesses quesitos, eu prefira o bom humor de uma Clarice Falcão e músicas como “Uma canção sobre o amor”, o texto me serviu para refletir sobre outra forma de encontro amoroso: aquele com o nosso idioma materno. Tenho lido a maior parte do tempo em francês, escrito em inglês para congressos, e de repente o sabor de um conto literário em português caiu como uma luva para este domingo em que, depois de dias de chuva, o sol deu as caras num céu lavado e muito azul. Depois ele também foi embora, “nos largou”, mas aí já estávamos nos divertindo com palhaços, carrosséis e acrobatas, no Museu das Artes de Feira, que só abre em datas especiais – como hoje. (15 de setembro de 2013.)