segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Poema ternário nº1

Pelos olhos do filhote,
o jantar dos urubus
– sombrio reflexo.

(12/01/09)

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Cefadroxil

A cor do jaleco não deixava dúvidas: era, sim, um médico; uma dessas pessoas que a gente chama de doutor, e na frente das quais se sente constrangido ao pronunciar nomes de antibióticos e procedimentos cirúrgicos. Era, porém, um médico de atestado médico. Desses que atendem em uma sobreloja da rua Paraná e que não se importam com os encardidos deixados sobre o tecido branco. Desses que mal perguntam o seu nome, apenas medem a sua pressão, manipulam com desleixo o estetoscópio, depois anotam com descaso, marcando um X aqui outro acolá, o histórico de doenças da sua família. Exames do Detran, demissionais, admissionais... Ah, e esse último... simplesmente o matava: indivíduos recém-contratados, com sua enervante alegria por terem conseguido um emprego novo, que vai quitar as dívidas, financiar a moto, aumentar o status social. E ele ali: na mesma. Estetoscópio, inspira e expira, diabetes na família?, bebe?, fuma?. Um saco. A felicidade imbecil do resultado do vestibular, tantos anos de cursinho antes, tantos anos de faculdade depois, o preço exorbitante daqueles livros pesados, e tanto corte e tanta cobaia e tanto nome de osso, tanto sangue e tripa na merda da residência no pronto socorro... pra quê? Estetoscópio, inspira, expira, diabetes na família?, bebe?, fuma?. Merda. Não podia haver emprego pior do que o dele.
Mas então ele pensava no rapaz do laboratório de análises clínicas. E pedia – sorrindo, disfarçado – um exame de fezes, só por garantia.

(20 de janeiro de 2010.)

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Novembro, mês onze

I

No dia que a injustiça estendeu
sobre o meu desejo mais casto
seu arsenal de quarenta tentáculos,
coloquei em ordem todas as gavetas
dobrando de novo as camisas
doando as saias que não me servem mais
organizando por cores,
da ausência à profusão,
todos aqueles vestidos.

No dia seguinte,
quando acordei,
com a ressaca de um
afiado desapontamento,
puxei as gavetas
uma a uma
para sentir que o dia anterior
não havia sido perdido
nem os meses
nem a vida.
Haveria de haver,
afinal,
uma ordem
– mesmo que em desacordo.




II


Tudo o que quero
agora
nesse charco
de preguiçosa desesperança
é uma manhã para mim.

Uma manhã para,
enquanto o sol é bom,
rasgar papéis agora inúteis
tirar a poeira tagarela dos móveis
repensar o diálogo entre os livros
na estante de madeira.


Porque
à tarde
quando faz calor
eu me desanimo de tudo
despersonifico-me
e consigo pensar apenas
em jogar o meu corpo dentro d´água
no fundo, bem no fundo
depois dissolver
len-ta-men-te
sentindo os pedaços de mim se afastaram
cada vez para
mais longe
mais despedaçados
torcendo para que eles
nunca mais voltem
nunca mais voltem a ser
essa coisa só
que eu sou.

(29 de novembro de 2009)