Eu gosto de coisas. Não por acaso, admiro o temido – para muitos, execrável – Alain Robbe-Grillet, em sua primeira fase, a conhecida como “chosiste” (coisista). As coisas nos dizem: roupas, acessórios, livros, quadros, móveis, revistas em quadrinho, CD´s e DVD´s. E, às vezes, deixam de dizer. Algumas semanas atrás, uma colega de trabalho criticou os meus brincos. Na hora, fiquei irritada. “Será possível que, ao acordar, às 5h da manhã – o que, por si só, já é sofrimento suficiente –, eu ainda terei que pensar com calma na escolha do que penduro na orelha?” Dias depois, remexi o porta-joias: meus brincos realmente não tinham mais nada a ver com a “eu de hoje”. Já tiveram, claro, na minha fase hippinha. Mas isso ficou para trás e os brincos também deveriam ter ficado. Não tenho, porém, coragem de jogar as coisas fora, assim, a sangue-frio. Então peguei uma caixa bonita, e guardei ali os brincos que não mais me traduziam. Dei à senhora que lava a minha roupa, sempre tão cordial e caprichosa. Ela tem filhas e sobrinhas, e alguém poderia, quem sabe, gostar de alguma das bijuterias. E vi que tinha acertado quando, ao entregar a sacola de roupas limpas, a senhora veio acompanhada da filha, de uns oito anos... assim que abri o portão, a menina me esperava, com os braços na cintura, o peito estufado, como uma super-heróina, exibindo-me um par de brincos vermelhos, compridos, outrora meus, e um sorriso indescritível. Fiquei feliz por uma semana por causa daquilo. (...) Outra coisa que me faz pensar nas coisas: o supermercado. O Veríssimo (o Luís Fernando) já escreveu sobre como o lixo descreve nossas personalidades. Mas antes do lixo vem a lista de compras. É um dos meus passatempos favoritos: tentar adivinhar as rotinas por aquilo que as pessoas colocam no carrinho de compras. Dias atrás, entretanto, notei que estava sendo vítima do meu próprio veneno: o caixa que costumeiramente me atende, um moço bonzinho lá de Barbacena, começou a querer puxar conversa através dos itens na esteira. Primeiro foi o bolo que comprei no meu aniversário, as velinhas, a idade, se ia ter festa; depois, os sacos de pirulitos que distribuí para os meus alunos no centenário do Corinthians... e mais conversa, indo e vindo, assim, sucessivamente. Até que, para arrematar a curiosidade e calar as pretensões possivelmente amorosas do rapaz, comprei um vinho chileno e um par novo de taças. Seu olhar triste para a garrafa foi de dar dó. É, as coisas, por si mesmas, podem ser só coisas, mas como dão margem à imaginação...
*
Só para constar: duas semanas atrás, em Três Corações, minha madrinha contou que o Juninho (veja postagem anterior) sempre assiste aos jogos do Corinthians, e a chama: “Vem, Vó, vem ver, é o Corinthians. A Gelly deve estar lá torcendo, né?” Achei comovente. Resultado: dei a ele, no dia seguinte, a prometida camisa do Timão.
*
Todo mundo vai falar que não foi pênalti, que foi roubado, que o Corinthians – sabe-se lá por que – é o queridinho da mídia, da arbitragem, do governo, do Bope, da Interpol... Mas a gente ganhou. Estão lá os três pontos, vamos dormir na liderança, estamos felizes (assim como o Galo que, merecidamente, goleou o Luxemburgo). E, pelo menos por enquanto, como diz o filósofo James Hetfield, “nothing else matters”.
sábado, 13 de novembro de 2010
sábado, 30 de outubro de 2010
Juninho
A gente bem que tentou criar o menino, como o filho que não tivemos e que, juntos, jamais teremos – meu irmão e eu. Com pretensões didáticas, em cada visita à terra natal, nós o ensinávamos a jogar damas, xadrez e a usar desodorante. Chegamos mesmo, ao notar suas tendências flamenguistas, a chamá-lo para uma conversa séria, em que eu disse: “Você pode escolher entre o time que quiser, qualquer um... entre São Paulo e Corinthians.” Ele nos fitou, indeciso, e (eu sei, tenho mais cara de brava) acabou respondendo: “Corinthians.” “Então eu vou sustentar o seu vício.” E prometi uma camiseta que ainda não comprei, visto que não há vício nenhum ali além do vídeo game. E, quando dissemos, empolgados, que em breve teria início a Copa do Mundo, e que haveria futebol o tempo todo, por um mês de indizível felicidade, ele ficou desconcertado, querendo saber se o SBT continuaria exibindo a sua série favorita, “Supernatural”, a que ele assistia com a cachorrinha, a Sasha, com o medo que tinha do excitante sobrenatural. Há uma porção de narrativas sobre o Juninho, um arquivo gigantesco de fotos e uma sequência de vídeos (porque, todos os anos, nós o entrevistamos, para acompanharmos a mudança de seu ponto de vista sobre o mundo com o passar do tempo), mas a melhor história talvez seja a das contas matemáticas. Quando estava prestes a começar a 1ª série, decidimos ocupar o tempo de suas visitas frequentes à nossa casa ensinando-lhe as quatro operações básicas. E o menino, que sofria de déficit crônico de autoestima, passou a se orgulhar de si mesmo por conseguir fazer “contas de cabeça”. E com toda a razão, porque ele era bom nisso. Mas o que o incentivava era o que vinha junto com os números... Sabendo das preferências alimentares do garoto, a gente dizia: “Você tem vinte salgadinhos...” E ele, ansioso, perguntava: “Qual salgadinho?” “Coxinha. Aí ganha mais quinze...” Ele emitia uma série de gulosas interjeições, e respondia: “Trinta e cinco! Trinta e cinco coxinhas só pra mim!?” Acertava todas as adições, multiplicações, e, num tom mais melancólico, também as subtrações e divisões. Dias atrás, ele me falou que, agora com dez anos, é um dos melhores alunos da sala, e que isso é por causa daquele verão que passamos juntos, fazendo contas de cabeça. E, o melhor, quando me assistia ensinando as tais operações para o seu primo mais novo (só com algarismos, sem acréscimos alimentícios), ele, notando a dificuldade do menino, aconselhou: “Faz as contas com pão de queijo, Gabriel!” Ironia: da matemática, o que ele mais gostava era, no fundo, o sonho, o abstrato, o literário.
(30/10/10)
(30/10/10)
quinta-feira, 21 de outubro de 2010
Starts with you...
Faz mais de uma semana que voltei do SWU, em Itu – aquela reedição do Woodstock sobre a qual escrevi em julho neste blog – e ainda estou bendizendo diariamente o prazer de deitar na minha cama quentinha, com edredom e travesseiro. Porque, numa boa, ir a festivais só nos faz pensar no quanto seu formato deveria ser repensado. Claro que há algo sublime, meio wagneriano, nas proporções gigantescas do evento, com 160 mil pessoas, 74 atrações musicais, em uma fazenda, a céu aberto, no meio do nada... Tudo isso fora a ideia “starts with you” da coisa: é isso aí, vamos salvar o mundo! Estavam lá as lixeiras (cujo conteúdo seria quase integralmente reciclado), as exposições de arte, as frases de efeito no telão e as instalações interativas – como um labirinto construído com lixo prensado, bastante sugestivo. Mas o tempo fez questão de mostrar que o descaso de séculos com o planeta não vai ser revertido com três dias de festa supostamente consciente. O clima era de deserto: de dia, um sol insuportável, de queimar, arder e descascar a pele; à noite, o pior frio que eu já senti na vida. E olha que eu já senti frio! A sensação térmica chegou aos sete graus. Havia momentos em que eu torcia para que os shows acabassem logo ou para que alguém no palco me olhasse, ali, tremendo, sem agasalho, indefesa, e dissesse: “Por favor, alguém empreste uma blusa de lã pra essa menina! Um casaco de soft? Pode ser, pode ser.” Jamais vou me esquecer da madrugada congelante, durante o show do Linking Park (a que não assisti, ávida que estava por uma minipizza de oito reais, depois de doze horas sem comer), e da gentil senhora de Macapá, que, junto a três manauaras, enrolava-se em um cobertor cor-de-rosa que por alguns instantes me aqueceu também. E o ônibus da excursão só apareceria às 4 horas da manhã, porque algum playboy queria ver o show (?) do Tiesto. Outro inconveniente, aliás, é a mistura de públicos, que, com diferentes objetivos no mesmo lugar, não sabem respeitar o espaço do outro, vaiando bandas ancestrais como Yo la tengo, transformando brindes em pilhas de lixo, emporcalhando o já nojento banheiro químico. Porém, dramas à parte, o show perfeito do Queens of the Stone Age, o prazer indizível de assistir ao encontro dos irmãos Cavalera, a doçura do Pixies e, claro, o belíssimo (!) show do Incubus fizeram valer esses sacrifícios. E ano que vem tem mais... Anunciam-se Alice in Chains e o retorno das cinzas do System of a Down. Mas, desta vez, eu levo um poncho, um cachecol e uma garrafa de conhaque.
*
E por falar em Incubus, o vocalista, Brandon Boyd, que também é escritor e artista plástico, foi preso dias antes de embarcar para o SWU, ao encontrarem um canivete em sua bagagem de mão, no aeroporto de LaGuardia. Por coincidência, foi exatamente sobre o que me alertaram meus estimados alunos quando souberam que os acompanharia em uma viagem a Petrópolis (dois dias após voltar de Itu): “A viagem é de ônibus, mas os canivetes continuam proibidos.” Uma doce referência, óbvio, à minha linhagem corintiana. O passeio por Petrópolis foi memorável, é claro. Rendeu, por exemplo, o texto cujo trecho transcrevo a seguir, de autoria de Mateus Nardelli:
“Fedor, vômito, e uma eternidade assentado. Essas são as mais temidas sensações das viagens de ônibus, pelas quais a maioria das pessoas já passou.
Quem nunca usou um banheiro químico? Utilizar um banheiro no qual só se pode urinar. E essa urina fica acumulando na água até o produto químico a diluir. Não sei se vocês concordam comigo, é no mínimo nojento. Mas não é só a questão sanitária que traz insatisfações naquelas horas. O pior é chegar até lá. Essa arriscada epopeia que vivemos para nos aliviar é mais perigosa do que qualquer esporte radical. Uma única freada em momento errado e podemos transformar nosso simples instante de alívio em um traumatismo craniano e um cotovelo ralado. Não vamos nos esquecer da hora H, que para os homens é um emocionante jogo de tiro ao alvo e, às mulheres, um touro mecânico.”
E ainda me perguntam se gosto do que eu faço...
*
E por falar em Incubus, o vocalista, Brandon Boyd, que também é escritor e artista plástico, foi preso dias antes de embarcar para o SWU, ao encontrarem um canivete em sua bagagem de mão, no aeroporto de LaGuardia. Por coincidência, foi exatamente sobre o que me alertaram meus estimados alunos quando souberam que os acompanharia em uma viagem a Petrópolis (dois dias após voltar de Itu): “A viagem é de ônibus, mas os canivetes continuam proibidos.” Uma doce referência, óbvio, à minha linhagem corintiana. O passeio por Petrópolis foi memorável, é claro. Rendeu, por exemplo, o texto cujo trecho transcrevo a seguir, de autoria de Mateus Nardelli:
“Fedor, vômito, e uma eternidade assentado. Essas são as mais temidas sensações das viagens de ônibus, pelas quais a maioria das pessoas já passou.
Quem nunca usou um banheiro químico? Utilizar um banheiro no qual só se pode urinar. E essa urina fica acumulando na água até o produto químico a diluir. Não sei se vocês concordam comigo, é no mínimo nojento. Mas não é só a questão sanitária que traz insatisfações naquelas horas. O pior é chegar até lá. Essa arriscada epopeia que vivemos para nos aliviar é mais perigosa do que qualquer esporte radical. Uma única freada em momento errado e podemos transformar nosso simples instante de alívio em um traumatismo craniano e um cotovelo ralado. Não vamos nos esquecer da hora H, que para os homens é um emocionante jogo de tiro ao alvo e, às mulheres, um touro mecânico.”
E ainda me perguntam se gosto do que eu faço...
domingo, 10 de outubro de 2010
E não é que foi bom!?
É, galera, e eu fui a São Paulo ver o Bon Jovi esta semana. E o Bon é bom, naquilo que se propõe a fazer – sejam baladas grudentas, refrões otimistas ou cantadas a repórteres femininas. Mas havia outros significados em estar ali, mais uma vez no “La Bambinera”, espremida entre sessenta mil pessoas que gritavam histericamente a cada vez que o telão exibia o sorriso cheio de dentes desse moço (sic) de New Jersey. A verdade é que o Bon Jovi, por causa da “Always”, foi quem abriu as portas para as outras bandas de rock na minha vida. Parece piada, mas, quando ouvi pela primeira vez um CD inteiro dele, percebi, estarrecida, no auge dos meus magrelos 11 anos, que eu gostava das músicas “pesadas” – e você entenda com generosidade o peso no Bon Jovi, claro. E foi para aprender as letras dele que decidi estudar inglês. E o elegi como ídolo – a ser substituído, pouco tempo depois, pelo simpático Eddie do Iron Maiden –, desses pelos quais a gente chora, pensando na injustiça da vida que fez impossível o encontro de vocês. Foi, sim, para provar a essa menina de 11 anos, do interior de Minas, que, em certa medida, encontrar o Bon Jovi não era impossível, que embarquei na missão “Bon: o som da sexta série”. O outro motivo foi o imenso prazer de estar lá com meus amigos de colégio, que dividiram comigo a febre “I´ll be there for you” one of “these days”. A terceira razão é, óbvio, o espírito de aventura. Acho que, se tivesse ganhado, em um desses concursos de rótulo de margarina, o direito de ser levada ao concerto por um helicóptero, que me buscaria em casa e me deixaria lá, no camarote VIP da Globo, não teria sido tão legal. Ir direto do trabalho para o aeroporto, pegar em Guarulhos uma carona com uma santa desconhecida do interior do Espírito Santo... aí entrar num táxi com três recifenses (tão desconhecidos quanto) torcedores do Sport (que ficavam recordando a Copa do Brasil que ganharam sobre o Timão)... depois encontrar meus amigos de TC – que estavam com o meu ingresso! – na porta do estádio (o melhor abraço de toda a minha vida)... e sair de três horas intensas de show para o aeroporto e do aeroporto para o trabalho (quase a lei do eterno retorno)... Isso, sim, foi o show do Bon Jovi. Quase como descreveria o galã, se isso fosse uma canção: “Hey, man, I´m alive, I´m taking each day and night at a time. I´m feeling like a Saturday night” em plena quarta-feira gorda. E que venha, daqui a pouco, o SWU!
(10/10/10)
(10/10/10)
quinta-feira, 30 de setembro de 2010
Homenagem sans titre
A
Quando meu pai chegava em casa, ouvia-se o estalar de seus joelhos ao subir a escada, e sua barba roçava calada o espaço vago dos corredores. Sem dormir, eu fingia. Pesada e atenta, ganhava, de todo o seu cansaço, um carinho móvel – abraço guiado entre estreitos de portas e vãos – até o meu canto, sem notas. Meu pai sabia de cor o nome das capitais, meia dúzia de constelações e certas canções sertanejas de filhos que voltam, bules de café e fogões de lenha. Eu soube sempre esperá-lo sem palavras.
B
Minha mãe me disse que o homem era o culpado pela morte dos dinossauros, tantos anos antes de nós duas no mundo. Sabia que era mentira, mas não queria contrariá-la. Tinha perguntas demais em mim, que não rimavam com seus olhos, os mais graves, nem com a sua atenção sem dono. Nunca descobri a que alegria minha mãe pertenceu por inteiro, sem horários ou normas. Contou-me três histórias de fadas e uma série de fábulas, que reconto até hoje, costurada para sempre a seus provérbios e finais felizes. Minha mãe ensinou-me a honestidade e a gratidão, e mostrou-me o quanto é forte a fraqueza, nos lobos, nas peles e nos cordeiros.
C
Quando rezava a oração do anjo da guarda, dizia, contraditória e sem egoísmos: meu anjo da guarda, minha doce companhia, me proteja e me guarde – eu, minha mãe, meu pai, meu irmão – de noite e de dia, amém. Era como se soubesse que, em mim, carregava os três, inseparáveis, partes do mesmo pronome pessoal. Mais tarde, incluí o Corinthians, meu time do coração, que me fez sofrer muito mais do que todos os meus namorados e amores de papel.
D
Aprendemos a nos proteger juntos, com paredes claras e bom-humor mordaz, das guerrilhas domésticas e do gosto musical malogrado dos nossos vizinhos. Soubemos sempre dividir ao meio chocolates, esperanças e bandas de rock. Dos roedores sorrateiros e das noites sem luz elétrica, salvaram-nos vozes, nossas, com seus cavaleiros e nuvens atados a elas, brilhantes. Dos medos do mundo, de todos e tantos, o meu, mais verdadeiro e triste, é perdê-lo de mim.
E
Antes seriam cinco e teriam nomes estrangeiros. Depois, três; as meninas em maioria, com pliets e elevets. Em seguida, meia década, mais realista, quis um só: Johann, como o compositor alemão, mas, de preferência, sem fugas. Hoje, transito entre um e zero: Heitor, nome pelo qual me apaixonei na dedicatória de um livro bom; ou Zero, como o cachorro fantasma de um tétrico stop motion. Se tiver um filho, quero pedir-lhe para ser do mundo, desde o início, para que não haja dor nem adeus. Só o vento forte das tempestades na tarde seca, arrancando, das flores, perfumes íntimos, seus.
(fev./2009)
Quando meu pai chegava em casa, ouvia-se o estalar de seus joelhos ao subir a escada, e sua barba roçava calada o espaço vago dos corredores. Sem dormir, eu fingia. Pesada e atenta, ganhava, de todo o seu cansaço, um carinho móvel – abraço guiado entre estreitos de portas e vãos – até o meu canto, sem notas. Meu pai sabia de cor o nome das capitais, meia dúzia de constelações e certas canções sertanejas de filhos que voltam, bules de café e fogões de lenha. Eu soube sempre esperá-lo sem palavras.
B
Minha mãe me disse que o homem era o culpado pela morte dos dinossauros, tantos anos antes de nós duas no mundo. Sabia que era mentira, mas não queria contrariá-la. Tinha perguntas demais em mim, que não rimavam com seus olhos, os mais graves, nem com a sua atenção sem dono. Nunca descobri a que alegria minha mãe pertenceu por inteiro, sem horários ou normas. Contou-me três histórias de fadas e uma série de fábulas, que reconto até hoje, costurada para sempre a seus provérbios e finais felizes. Minha mãe ensinou-me a honestidade e a gratidão, e mostrou-me o quanto é forte a fraqueza, nos lobos, nas peles e nos cordeiros.
C
Quando rezava a oração do anjo da guarda, dizia, contraditória e sem egoísmos: meu anjo da guarda, minha doce companhia, me proteja e me guarde – eu, minha mãe, meu pai, meu irmão – de noite e de dia, amém. Era como se soubesse que, em mim, carregava os três, inseparáveis, partes do mesmo pronome pessoal. Mais tarde, incluí o Corinthians, meu time do coração, que me fez sofrer muito mais do que todos os meus namorados e amores de papel.
D
Aprendemos a nos proteger juntos, com paredes claras e bom-humor mordaz, das guerrilhas domésticas e do gosto musical malogrado dos nossos vizinhos. Soubemos sempre dividir ao meio chocolates, esperanças e bandas de rock. Dos roedores sorrateiros e das noites sem luz elétrica, salvaram-nos vozes, nossas, com seus cavaleiros e nuvens atados a elas, brilhantes. Dos medos do mundo, de todos e tantos, o meu, mais verdadeiro e triste, é perdê-lo de mim.
E
Antes seriam cinco e teriam nomes estrangeiros. Depois, três; as meninas em maioria, com pliets e elevets. Em seguida, meia década, mais realista, quis um só: Johann, como o compositor alemão, mas, de preferência, sem fugas. Hoje, transito entre um e zero: Heitor, nome pelo qual me apaixonei na dedicatória de um livro bom; ou Zero, como o cachorro fantasma de um tétrico stop motion. Se tiver um filho, quero pedir-lhe para ser do mundo, desde o início, para que não haja dor nem adeus. Só o vento forte das tempestades na tarde seca, arrancando, das flores, perfumes íntimos, seus.
(fev./2009)
domingo, 19 de setembro de 2010
Baby, o porquinho
Deram uma paulada na cabeça do porco que, com as patas amarradas, tentava escapar do inevitável. Era uma tarde de sol, dessas de verão precipitado, numa cidade de médio porte. Quem tirava um cochilo de depois-do-almoço acordou assustado. O grito do porco arranhava o raciocínio, derrubava as paredes, entrava no ouvido como a faca debaixo da pata esquerda, o sangue que saía em jatos. O sangue tinha mesmo que escorrer ou estragava a carne, dizia um entendido. Devia ter cortado a jugular, dizia outro, assustado com o olho aberto do bicho, que ainda se estrangulava num ruído agudo, um guincho, desesperado, insistente. A dor do grito do porco é o mais legítimo som do sofrimento. Um dos homens, o mais assassino de todos, afundava mais fundo o facão, já cego de tanto vermelho, sem saber onde nem como nem quanto. E alguém chegava agora com a água fervendo, que era para escanhoar o animal, tirar o pelo áspero, abrir caminho para a pururuca, pro torresmo. Aos poucos, o bicho foi morrendo, com seu rabo torcido e seu focinho de tomada cor-de-rosa. E o eco do grito do porco deu lugar ao martelar dos prédios em construção, numa cidade de médio porte, tão cheia de fé em si mesma.
(19/09/2010)
(19/09/2010)
sábado, 11 de setembro de 2010
Allons-y, à la plage!
Ir à praia sempre pareceu algo pouco natural para mim: afinal, representaria torcer contra a chuva e ouvir axé sem ficar analisando – e criticando – a letra. Mas não era só isso: a intromissão da areia, o sol, a pele descascando depois, e aquela série de coisas que as pessoas costumam achar “superlegais”, como pular onda (ah, que divertido!) e depois ficar “secando”, estirado sobre a canga colorida, com tantas partes do corpo à mostra, na ânsia de voltar para casa bronzeado, com “marquinha de biquíni”... bem, tudo isso me cansava só de imaginar, e eu escolhia mesmo era perseguir os lugares frios – de preferência, com possibilidade de geada e neve. Mas as coisas mudam, e a gente muda também. Poucos anos atrás, comecei a achar bonito o mar e a gostar do sol – um pouco por influência das “Núpcias”, de Camus, que é um livro belíssimo sobre essa riqueza dos litorais. E a ir à praia em situações inevitavelmente empolgantes, com grupos de pessoas bem entusiasmadas, dessas de quem você precisa fugir, sorrateiramente, e se esconder no banheiro, se quiser ler um livro sem que pensem que você está triste, com princípios de depressão ou algo assim. Com o tempo, a gente aprende a se deixar contagiar. A ver que não há mal nenhum nisso. E passa até a gostar dessas férias solares de si mesmo. Foi o que aconteceu no último feriado, quando fui para Ubatuba com meus amigos de colégio. Nós nos conhecemos há uns dezessete anos, sabemos uma tonelada de coisas uns dos outros, a ponto de podermos prever nossas reações a tais e tais situações, e, mesmo assim, ainda nos gostamos, sentimos saudade, queremos ficar perto. Porque a amizade tem que ser assim, uma piscina de almofadas, sobre a qual você possa se atirar sem medo, podendo dividir suas expectativas, seus segredos e mesmo suas inevitáveis irritações. Choveu todos os dias em que estivemos na praia, e não pude trazer para casa a famigerada “marquinha de biquíni”... Porém, ninguém teve dúvidas de que se divertiu, de que havia, sim, algo de ensolarado nessa viagem entre amigos, que a gente queria fazer há pelo menos dez anos, mas que não podia, porque nossos pais não deixavam antes. Pois é: mais uma prova de que envelhecer faz bem.
(11/09/2010)
(11/09/2010)
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