Enterro
De repente era o barro e a chuva. E um barulho – antes. Ou seria ao mesmo tempo? A avalanche e o estrondo. E uma coisa esquisita, doída, que a gente não sabe dizer se é sensação, pensamento, aviso de Deus: corre! Obedeci. A terra caindo junto com o teto, tudo indo de uma vez só. E eu fiquei. Preso entre a porta e o desastre. Minha casa, que eu levei tanto tempo para construir, que me fazia sentir tanto orgulho de voltar para ela, era o que me separava da fuga. Doía tudo, perna, braço e o pescoço que eu não conseguia virar. Mas eu ainda respirava e isso era o que eu tinha. E a voz, que usei para gritar muitas vezes a palavra que a gente vê no cinema, e pensa que nunca vai precisar: socorro! Estavam todos ocupados com suas próprias catástrofes, correndo, chorando, contando seus mortos. Eu sabia que, do lado de fora, tudo podia estar ainda mais escuro e enlameado. Mesmo assim, tentei lutar, mover, erguer um pedaço da parte de tudo que pesava sobre as minhas costas. Ofegante, desmaiei. Acordei pensando nos meus filhos, que a minha mulher tinha levado embora antes, graças a Deus. Foi aí que ouvi vozes. Eram os bombeiros. Trabalhavam no resgate, e eu era um dos procurados: vivo ou morto. Havia mais gente. Uma pequena multidão, talvez. Eu gritei. Senti a terra ceder um pouco mais sobre a minha cabeça. Estavam todos muito próximos. Gritei de novo. Uma palpitação, uma esperança. E, ao mesmo tempo, a fraqueza. Não conseguia fazer mais nada, e era surdo o espaço entre o meu buraco e o ar. Então escutei aplausos, uma comoção. Os bombeiros tinham conseguido, haviam habilidosamente resgatado uma mulher que, felizmente, ainda respirava sob o barracão vizinho ao meu. Tentei gritar novamente. Não me ouviram. Era surdo o espaço entre o meu desastre e aquela comemoração. Percebi, com horror, que “soterrado” e “enterrado” eram palavras muito, mas muito parecidas.
(18 de janeiro de 2011.)
Enterro – II
Quando o André falou que a gente ia ter uma casa, eu juro que não acreditei. Fiquei olhando pra ele, ele rindo e eu com aquela cara de “me diz aí qual é a piada.” Mas ele tava falando sério. A vida inteira eu tinha sonhado com isso. De menina, era só um colchão magrelo, que eu dividia com uma tia velha. O quarto era de todo mundo, aquele mundaréu de irmão e parente e cachorro que a gente ficava com dó de deixar na rua. Depois que eu conheci o André, a gente mudou pr´uma casinha de fundo, alugada, mas tava bom, eu nunca fui de reclamar. Aí vieram os menino, foi tudo ficando apertado de novo, e os cachorro que os menino trazia pra dentro... mas a gente dava um jeito. Eu engolia essa vontade de ter um lugarzinho só nosso, porque a gente trabalhava pra diabo e não dava, não tinha jeito, o dinheiro era a conta... e todo mundo ali tinha saúde, tava bom. Só que o André tava fazendo uma reserva, pra me fazer uma surpresa, pensa bem. Aí, igual ele me contou depois, apareceu uma “oportunidade”. É, ele usou essa palavra mesmo. Um conhecido ia mudar pra São Paulo, ofereceu o barracão a preço de banana. O André não tinha o dinheiro todo, mas a gente deu um jeito: pagou metade, depois eu arrumei um pouco emprestado, ele fez uns biscate e a gente acertou tudo. Nem acreditava. Não era grande, não, mas era nosso. Era meu. Caraca!, eu nunca tinha nada pra dizer que era “meu”. E a gente foi feliz ali, ô se foi! O problema é que o barraco ficava no pé do morro e, quando chovia forte, a gente ficava com medo. Era um barro só, uma lama, e aquela ventania, as coisa tremia dentro de casa. Eu abraçava os menino e a gente esperava, esperava, até passar. Aí eu fui cansando de ficar com tanto medo, peguei os menino e enfiei tudo no quartinho de empregada na casa da minha patroa. Gente boa ela, disse que a gente podia ficar lá até acabar a época da chuvarada brava. Só que não tinha lugar pro André. Ele falou que ia pra casa d´um primo. Eu falei “então vai hoje”. “Amanhã eu vou. Juro.” E eu acreditei, sei que ele ia cumprir, homem bom que só ele, que nem conseguia dizer mentira. Eu sei que ele ia cumprir. Só que não deu tempo.
(19 de janeiro de 2011.)
Enterro – III
Sobe para 712 o número de mortos no maior desastre natural já ocorrido no Brasil
O número de vítimas das chuvas no estado do Rio de Janeiro subiu para 712, nesta madrugada. Porém, não foram diretamente os deslizamentos os responsáveis pelo 712º falecimento contabilizado. De acordo com a Polícia Militar, o feirante Welington Ferreira de Freitas, 34, encontrado morto com diversos ferimentos pelo corpo e na cabeça, no bairro da Ribeirinha, teria sido espancado até a morte por moradores de Nova Friburgo, ao ser pego, em flagrante, tentando sequestrar um caminhão de mantimentos destinados aos prejudicados pela chuva. “É um absurdo! Como alguém ainda quer tirar vantagem numa situação dessas?”, manifestou-se um dos moradores, que não quis se identificar. Segundo a PM, casos como esses podem se repetir: “Está tudo mundo muito nervoso, desesperado... E a polícia está ocupada tentando resgatar pessoas com vida, sob os escombros. Não dá para controlar os saques que têm acontecido às residências, então a população acaba fazendo justiça com as próprias mãos.”, declarou o sargento Ricardo de Oliveira Silva, do 49º DP. Os familiares do feirante, procurados por esta reportagem, não quiseram se manifestar.
(19 de janeiro de 2011)
quarta-feira, 19 de janeiro de 2011
domingo, 16 de janeiro de 2011
Antes do beijo na Dilma...
Quando minha avó ficou doente, nós passamos uma temporada cuidando dela, num bairro sem asfalto chamado Canto do Rio. Era 1989, e Lula concorria à presidência pela primeira vez. Meus pais eram petistas, mas meu pai era fanático. Cresci em meio a comícios, comitês e passeatas. Então, minha avó faleceu, no mesmo período em que Lula fazia campanha pelo sul de Minas, especificamente em Varginha. Não sei ao certo o que se passava ali, entre os adultos, mas lembro-me de que estavam todos muito nervosos com a recente perda na família, e minha mãe preferiu não deixar sozinhos meu avô e meu irmão menor para ir ao comício. Íamos, então, meu pai e eu. Era uma oportunidade única, inadiável, imperdível. Na véspera, fui brincar na rua. Havia muitas crianças no Canto do Rio. Mamãe disse para não ir, que eu ia me machucar – mas, vez por outra, é preciso desafiar essas previsões pessimistas, “não entre na água, que você afoga”, “não suba na árvore, que você cai”. Fui. Eu tinha uns cinco anos e as crianças maiores só me aceitaram no pique-pega na condição de café-com-leite. Minutos depois, confirmou-se a premonição materna: eu me ferrei: caí de cara no chão, sobre uma pedra; fiquei com o rosto transfigurado. Pior daquela noite era olhar no espelho, aos prantos, minha mãe lamentando ao fundo: “agora você não pode mais ver o Lula...” Eu estava horrorosa, sem eufemismos; era possível que o pobre metalúrgico realmente se assustasse diante daquela assombrosa aparição. Mas eu queria muito, muito ir. No dia seguinte, lá estávamos nós. Em pouco tempo, eu já me divertia com outras crianças, sob aquele sol escaldante, e quase esquecia o quanto eu estava feia. Havia muita gente ali e, mesmo com os esforços do meu pai para me erguer acima da multidão, eu quase não conseguia, de fato, ver o Lula. Então o comício acabou. Foi tudo muito rápido. Aplausos, vozes, um tumulto e, de repente, abriu-se um corredor para a passagem do candidato do PT. Meu pai me pegou no colo e disse: “estenda a mão para ele”. Eu obedeci. Lula passou rapidamente por todo mundo, escoltado, visivelmente fatigado. Então ele parou. De repente. Diante de mim. Pegou minha mão e a beijou. Depois foi embora, sem olhar para os lados. Lembro-me ainda do rosto dele, do suor, do cansaço. Olhei para meu pai, maravilhada: “O Lula beijou a minha mão, Papai!” Fiquei famosa na cidade por algum tempo – nas cidades do interior, como na televisão, as pessoas ficam famosas por razões um tanto estranhas. Passei uma época acreditando que nada na minha vida poderia dar errado, já que o Lula – o futuro presidente da República – havia beijado a minha mão, e a de mais ninguém aquele dia, e isso tinha que significar alguma coisa. Depois percebi, na prática, que era uma só ideia estúpida.
Mas o beijo ficou.
(14/01/2011)
Mas o beijo ficou.
(14/01/2011)
domingo, 9 de janeiro de 2011
Texto de Ano Novo
Duas cenas: 1) No salão de beleza, à espera da tortura bimensal da depilação, ouço gargalhadas em série, dessas de alegria genuína. Olho pela janela, que dá para um quintal, e lá está uma menina, de uns cinco anos, que se diverte sozinha com um banho de mangueira num dia de sol quente. 2) Chegando ao colégio, dois meninos jogam futebol, sendo que um deles se posiciona diante de uma rampa. Resultado: a bola, a todo momento, escorrega para o pátio e o garoto precisa correr até lá para buscá-la e, então, dar continuidade ao jogo. Assim que o vejo, penso:“Que injustiça! Ele está sendo prejudicado... devia pedir que revezassem o lado do gol.” Mas olho para o menino e vejo que ele sobe e desce a rampa com olhos que estalam de euforia, totalmente alheio a isso que, a meu ver, é um inconveniente. Porque, para ele, tudo faz parte da brincadeira. Quantas vezes a gente, com medo de ser enganado, de fazer papel de bobo, irrita-se por pouca coisa, e acaba perdendo o melhor da festa... A gente leva tudo a sério de mais, e se esquece de pensar no que pode simplesmente fazer parte da brincadeira. Porque ser feliz é tão fácil: basta um banho de mangueira, uma fanta uva com doritos no banco da praça, um livro bom. Tão mais perto do que sugere aquela palavra difícil, que a gente só usa nos cartões de final de ano: “Um PRÓSPERO ano novo!” Tão mais simples... que me faz pensar em outra cena: 3) O aluno, na aula particular, refestela-se na cadeira, entediado. A professora diz: “Senta direito, menino!” Ele a olha bem nos olhos, com intensidade, e responde num suspiro: “Ah, fessora... Vocês, adultos, são todos iguais.” Sad, but true?
(09/01/2011)
(09/01/2011)
domingo, 26 de dezembro de 2010
Marialva
Foi por recomendação médica que passou a frequentar a academia de ginástica, a qual visitava pela manhã – parte destinada às donas de casa, como ela, e aos aposentados e funcionários públicos com expediente vespertino. A tarde, como se sabe, era dos adolescentes e das madames, e a noite pertencia aos fortões e às gostosonas, que disputavam espaço entre os espelhos, desviando-se dos seres humanos comuns, trabalhadores de período integral, que teimavam em manter a forma, qualquer que fosse.
No começo, era muito a contragosto que Marialva vestia a camiseta comprida, com a logomarca de uma loja de material para construção, amarrava os cadarços do velho par de tênis, e ia malhar. Passava, entretanto, grande parte do tempo diante da televisão, pedalando lentamente, enquanto folheava revistas de fofoca e aprendia, com a loiríssima apresentadora, receitas novas com ingredientes de que jamais ouvira falar. Assim, enganava-se, embora o colesterol continuasse alto – no que culpava a genética, sem remorso.
Mas um dia Marialva sentiu o peso saboroso de uma mão masculina sobre o ombro. Era o novo instrutor, que se apresentou, quis saber o seu nome – há quanto tempo, meu deus, um homem não perguntava o nome dela! – e explicou-lhe como fazer o exercício do “Graviton” sem forçar demais a lombar. Então ela percebeu que já estava mais do que na hora de trocar a calça surrada de cotton por um desses suplex, que deixa o corpo mais bonito, e cujo material, de tão bom, até brilha, dependendo do ângulo. Aproveitou para comprar blusas coloridas, curtas, de telinha, que era para favorecer a transpiração. E, claro, trocou o velho par de tênis, que aquilo era um atentado à coluna vertebral.
Marialva passou, então, a usar perfume e a pintar os olhos pela manhã, detalhe que o marido não percebeu, mas que ela tinha certeza de que, Rodrigo, o instrutor, notaria. Rodrigo e aquele sorriso e aqueles bíceps e aquela pele bronzeada e o jeito simpático de cumprimentá-la e chamá-la pelo nome todos os dias, assim que entrava na academia. Ela já não sabia se fazia os exercícios corretamente, para ouvir seus elogios, ou se errava de propósito, só para que Rodrigo viesse alertá-la, apoiar as mãos entre seu pescoço e os ombros, puxá-la suavemente para trás, mostrando como trabalhar os músculos escapulares com eficiência no “tríceps corda”.
Ali, diante do espelho, vendo refletida a sua imagem, que começava a ficar bem torneada, junto à de Rodrigo, o instrutor, o pensamento de Marialva dispersava-se: percorria cada músculo perfeitamente distinguível do corpo do rapaz, cuja beleza uma camada leve de suor só intensificava, e bendizia a mágica dos espelhos, que permite que se olhe sem ser imediatamente notado. Marialva, por segundos, perdia-se no calor de seus batimentos cardíacos acelerados, em fantasias que jamais se permitira, ela sempre tão maria e tão alva, tão casada e mãe, tão por baixo em todas as ocasiões. Sentia-se, naqueles poucos instantes, personagem central de um romance de banca de revista, impresso em papel-jornal, dos mais baratos, mais chulos, mais excitantes.
Depois lavava o rosto com água gelada, despedia-se, passava no supermercado, no açougue, na feira livre. E, vez por outra, também diante das construções, onde os operários, com seus comentários e sinceras ereções, estendiam, um pouco mais, o seu prazeroso protagonismo.
(24/12/2010)
No começo, era muito a contragosto que Marialva vestia a camiseta comprida, com a logomarca de uma loja de material para construção, amarrava os cadarços do velho par de tênis, e ia malhar. Passava, entretanto, grande parte do tempo diante da televisão, pedalando lentamente, enquanto folheava revistas de fofoca e aprendia, com a loiríssima apresentadora, receitas novas com ingredientes de que jamais ouvira falar. Assim, enganava-se, embora o colesterol continuasse alto – no que culpava a genética, sem remorso.
Mas um dia Marialva sentiu o peso saboroso de uma mão masculina sobre o ombro. Era o novo instrutor, que se apresentou, quis saber o seu nome – há quanto tempo, meu deus, um homem não perguntava o nome dela! – e explicou-lhe como fazer o exercício do “Graviton” sem forçar demais a lombar. Então ela percebeu que já estava mais do que na hora de trocar a calça surrada de cotton por um desses suplex, que deixa o corpo mais bonito, e cujo material, de tão bom, até brilha, dependendo do ângulo. Aproveitou para comprar blusas coloridas, curtas, de telinha, que era para favorecer a transpiração. E, claro, trocou o velho par de tênis, que aquilo era um atentado à coluna vertebral.
Marialva passou, então, a usar perfume e a pintar os olhos pela manhã, detalhe que o marido não percebeu, mas que ela tinha certeza de que, Rodrigo, o instrutor, notaria. Rodrigo e aquele sorriso e aqueles bíceps e aquela pele bronzeada e o jeito simpático de cumprimentá-la e chamá-la pelo nome todos os dias, assim que entrava na academia. Ela já não sabia se fazia os exercícios corretamente, para ouvir seus elogios, ou se errava de propósito, só para que Rodrigo viesse alertá-la, apoiar as mãos entre seu pescoço e os ombros, puxá-la suavemente para trás, mostrando como trabalhar os músculos escapulares com eficiência no “tríceps corda”.
Ali, diante do espelho, vendo refletida a sua imagem, que começava a ficar bem torneada, junto à de Rodrigo, o instrutor, o pensamento de Marialva dispersava-se: percorria cada músculo perfeitamente distinguível do corpo do rapaz, cuja beleza uma camada leve de suor só intensificava, e bendizia a mágica dos espelhos, que permite que se olhe sem ser imediatamente notado. Marialva, por segundos, perdia-se no calor de seus batimentos cardíacos acelerados, em fantasias que jamais se permitira, ela sempre tão maria e tão alva, tão casada e mãe, tão por baixo em todas as ocasiões. Sentia-se, naqueles poucos instantes, personagem central de um romance de banca de revista, impresso em papel-jornal, dos mais baratos, mais chulos, mais excitantes.
Depois lavava o rosto com água gelada, despedia-se, passava no supermercado, no açougue, na feira livre. E, vez por outra, também diante das construções, onde os operários, com seus comentários e sinceras ereções, estendiam, um pouco mais, o seu prazeroso protagonismo.
(24/12/2010)
sábado, 18 de dezembro de 2010
Como no título do livro de Charles Dickens
O problema com a expectativa é que todo o mais vira um mero coadjuvante diante daquilo que se espera. A gente não pensa simplesmente “Faltam nove dias.” A gente pensa: “Eu ainda TEREI QUE VIVER nove dias até lá.” Sinto isso desde muito nova, porque, na minha casa, sempre levou-se muito a sério que os presentes só chegavam nas datas especiais – a saber: Páscoa, aniversário, dia das crianças, Natal. (Por sorte, meu aniversário, que é em agosto, equilibrava bem a sequência de dádivas anuais.) Mas era o Natal a data mais esperada, não apenas porque, com o décimo-terceiro salário, o presente tendia a ser bem melhor do que os outros, mas por toda a ritualística: como uma saga, vencíamos a parte chata da missa, esperávamos ansiosos a chegada do Papai Noel, assim como, dias antes, havíamos aguardado a vinda de nossos primos de São Paulo; e então havia toda aquela comilança, e adultos bebendo e rindo alto na casa dos meus avós, enquanto nós corríamos pelo quintal, entre as árvores, exibindo o que tínhamos ganhado horas antes, ainda com perfume de novo. Lembro, porém, do quanto me sentia triste no dia seguinte. Com nitidez, recordo-me de um ano em que me sentei na escada de casa, fiquei olhando para o nada, e pensando, justamente, que ainda teria que viver um ano inteiro até que o próximo Natal chegasse. E isso tinha um peso insuportável à época. Mais tarde, aprendi a saborear a espera mais do que a conquista... porque, como num conto da Clarice Lispector, ficava a pergunta: “E o que é que a gente faz depois que é feliz?” Hoje, não sei, talvez tenha aprendido a agir com equilíbrio diante da questão. O dia está bonito, independente da espera. E garanto que, este ano, não me sentirei triste quando o Natal passar.
*
Ainda falando do tempo (e de “great expectations”)... Demorei meses para compreender o álbum novo do Anathema, “We´re here because we´re here”, o primeiro trabalho de estúdio lançado desde 2003. Demorei, claro, porque esperei encontrar um Anathema que já não existe mais; em contrapartida, deparei-me com canções de uma tocante euforia, tão etéreas que chegam a lembrar os islandenses do Sigur Rós. É possível ver pelas capas dos discos o quanto a banda se modificou ao longo desses vinte anos de estrada: pense no soturno e quase tenebroso “The Crestfallen Ep” (1992), passando pela penumbra de um “The Silent Enigma” (1995), até a claridade panteísta desse novo CD, que, na capa, ilustra um indivíduo apoiado sobre o horizonte, amplamente iluminado entre o céu e o mar. Até a estilização da fonte no nome da banda se alterou, simplificando-se. O som ganhou leveza, melodias suaves, mais teclados e sequências de acordes maiores que sugerem uma abertura, um aparente otimismo por parte do grupo inglês que, após passar por uma fase de penúria, em que precisaram pedir contribuições aos fãs pelo site, consegue, finalmente, lançar outro CD. As letras falam de amor, energia, comunhão, eternidade e soam a autoajuda, em certos momentos (“Only you can heal your life”), o que se compensa com a poesia despretensiosa de outros versos (“Love stills my mind like the sunrise”). Destaques para “Thin Air” (faixa que abre o disco), “A Simple Mistake” e a belíssima "Dreaming Light".
(18/12/2010)
*
Ainda falando do tempo (e de “great expectations”)... Demorei meses para compreender o álbum novo do Anathema, “We´re here because we´re here”, o primeiro trabalho de estúdio lançado desde 2003. Demorei, claro, porque esperei encontrar um Anathema que já não existe mais; em contrapartida, deparei-me com canções de uma tocante euforia, tão etéreas que chegam a lembrar os islandenses do Sigur Rós. É possível ver pelas capas dos discos o quanto a banda se modificou ao longo desses vinte anos de estrada: pense no soturno e quase tenebroso “The Crestfallen Ep” (1992), passando pela penumbra de um “The Silent Enigma” (1995), até a claridade panteísta desse novo CD, que, na capa, ilustra um indivíduo apoiado sobre o horizonte, amplamente iluminado entre o céu e o mar. Até a estilização da fonte no nome da banda se alterou, simplificando-se. O som ganhou leveza, melodias suaves, mais teclados e sequências de acordes maiores que sugerem uma abertura, um aparente otimismo por parte do grupo inglês que, após passar por uma fase de penúria, em que precisaram pedir contribuições aos fãs pelo site, consegue, finalmente, lançar outro CD. As letras falam de amor, energia, comunhão, eternidade e soam a autoajuda, em certos momentos (“Only you can heal your life”), o que se compensa com a poesia despretensiosa de outros versos (“Love stills my mind like the sunrise”). Destaques para “Thin Air” (faixa que abre o disco), “A Simple Mistake” e a belíssima "Dreaming Light".
(18/12/2010)
segunda-feira, 13 de dezembro de 2010
“Ratos, homens e folhas de relva”
Ainda me lembro de meu primeiro poema de Walt Whitman... entregue na praça, numa noite bonita de primavera, copiado com letra caprichada no verso de uma xérox da foto do poeta. Tornou-se um vício por muito tempo. Por muito tempo, aliás, namorei, da maneira mais terna, a literatura norte-americana, com seus beatniks, lagos e campos de centeio. Depois, porém, escolhi outras trilhas. Mas sempre pensei que, se me garantissem que os EUA têm ainda um quinto da poesia atribuída a eles nos poemas de Whitman, eu me mudaria para lá imediatamente.
Pois bem. Semanas atrás, falaram-me de John Steinbeck. E falaram de novo. E uma terceira vez, então numa livraria, quando percebi que aquilo só podia ser um sinal. O autor, que eu desafortunadamente não conhecia, integra o cânone literário norte-americano, foi Nobel em 1962, e escreveu obras como “A Leste do Éden” e “As vinhas da ira”, que espero ler em breve. Comecei, porém, por “Ratos e homens”, de 1937. Um livro de pouco mais de cem páginas, publicação da L&PM Pocket. Nada de mais, a princípio. Levei cerca de uma semana para concluí-lo, em minha tradicional leitura demorada, de saboreios e vésperas de sono. E, Deus, há muito tempo não chorava como ontem. Não que o choro sirva como medida para a qualidade de um livro, mas este, em particular, merecia... por ser simplesmente magnífico. As lágrimas representavam, mais do que o lamento pela triste trajetória dos personagens, o encanto por ter sido enredada em uma trama tão extraordinariamente construída, com tanta simplicidade, mas com uma maestria que só se revela no final, quando começamos a compreender os detalhes borrifados com discrição ao longo história. Claro, há, em toda adoração, algo de duvidoso. A grandiosidade do livro para mim relaciona-se a outras associações – como minha doce experiência com a literatura norte-americana ou a semelhança dos protagonistas com dois personagens comoventes de Akira Kurosawa, no filme “Dodes´ka-den” (1970), a que assisti recentemente. Mas há, sem dúvida, algo de fascinante em “Ratos e Homens”, de um fascínio tão puro, que só posso querer agora deitar-me sobre as “folhas de relva” e sonhar com o Mississipi.
(13/12/2010)
Pois bem. Semanas atrás, falaram-me de John Steinbeck. E falaram de novo. E uma terceira vez, então numa livraria, quando percebi que aquilo só podia ser um sinal. O autor, que eu desafortunadamente não conhecia, integra o cânone literário norte-americano, foi Nobel em 1962, e escreveu obras como “A Leste do Éden” e “As vinhas da ira”, que espero ler em breve. Comecei, porém, por “Ratos e homens”, de 1937. Um livro de pouco mais de cem páginas, publicação da L&PM Pocket. Nada de mais, a princípio. Levei cerca de uma semana para concluí-lo, em minha tradicional leitura demorada, de saboreios e vésperas de sono. E, Deus, há muito tempo não chorava como ontem. Não que o choro sirva como medida para a qualidade de um livro, mas este, em particular, merecia... por ser simplesmente magnífico. As lágrimas representavam, mais do que o lamento pela triste trajetória dos personagens, o encanto por ter sido enredada em uma trama tão extraordinariamente construída, com tanta simplicidade, mas com uma maestria que só se revela no final, quando começamos a compreender os detalhes borrifados com discrição ao longo história. Claro, há, em toda adoração, algo de duvidoso. A grandiosidade do livro para mim relaciona-se a outras associações – como minha doce experiência com a literatura norte-americana ou a semelhança dos protagonistas com dois personagens comoventes de Akira Kurosawa, no filme “Dodes´ka-den” (1970), a que assisti recentemente. Mas há, sem dúvida, algo de fascinante em “Ratos e Homens”, de um fascínio tão puro, que só posso querer agora deitar-me sobre as “folhas de relva” e sonhar com o Mississipi.
(13/12/2010)
domingo, 5 de dezembro de 2010
Desconsiderações futebolísticas
Um time que não dá conta de ganhar da equipe reserva do Goiás simplesmente não merece o título. O Corinthians perdeu o Brasileirão – assim como os demais campeonatos que disputou este ano – por pura incompetência. Salários bilionários a craques do passado, importantes desfalques como a saída de Mano Menezes, fatídicas contusões... podem servir como desculpa, mas a verdade é que jamais apresentamos o futebol à altura de um campeão este ano. A partida de hoje serve como metonímia de nossa desorganização, da fé no acaso, da cega ingenuidade que nos alimentou ao longo do ano todo. O trágico vai ser sair na rua amanhã e ver o desfile azul dos vice – que, no fim, são tão perdedores quanto todos os outros – arrotando a arrogância típica das marias, falsos justiceiros recobrando os chorados três pontos perdidos naquela partida contra o time que, em outro momento, eu chamaria de Timão. Mas não dá para ficar triste. O Corinthians não merece isso hoje.
*
Campeonato de segunda categoria, é inegável. Como naquelas gincanas de TV aberta, ao estilo do lendário “Passa ou repassa”, a última prova decidiu tudo, como se valesse mais pontos que as brincadeiras anteriores. Porque, como diria o bom e velho Capitão Nascimento, os times este ano foram um bando de fanfarrões: brincaram de “cai, cai, balão”, de “vou, não vou”, mas, principalmente, brincaram com a cara do torcedor. Até o Botafogo deu um jeito de perder feio para o Grêmio e mandar, provavelmente, mais uma vez, o tricolor gaúcho (carrasco antigo) para a Libertadores de 2011. E o São Paulo, que nada fez o ano inteiro, conseguiu golear o Atlético-MG... uma piada este Brasileirão, uma piada de muito mal gosto.
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Só não foi pior porque deu Fluminense, que não ganhava há vinte e seis anos, e que, coincidentemente, é o time do meu pai. Na minha família – como já disse – ninguém gostava realmente de futebol, mas, por influência minha e do meu irmão, meu pai começou, certa época, a acompanhar os jogos conosco e a ativar o amor pela equipe das Laranjeiras. Na maioria das vezes, ele se deitava no chão e dormia a partida toda, acordando vez por outra com os meus gritos de fúria, alívio ou comemoração. Mas, nesse período, houve um domingo em que eu o vi muito feliz: foi quando o Fluminense ganhou o Campeonato Carioca sobre o Flamengo, com o inesquecível gol de barriga do Renato Gaúcho, em 1995. Então, por outro momento de felicidade do meu pai, talvez eu consiga ver certo sentido no resultado do Campeonato Brasileiro deste ano.
*
Apenas mais uma coisa: nos últimos dois jogos, torcendo contra o Fluminense e o Cruzeiro, acabei vivenciando algo que jamais, em toda a minha vida, esperei que acontecesse: eu torci para o Palmeiras. Gritei “Porco!” e tudo, fiz um coraçãozinho com as mãos para o Dinei, quando marcou gol, na última partida. E – pasme! – fiquei emocionada com o vídeo do japinha, lamentando-se por nunca ver o “alviverde imponente” ganhar. Pois é. Sorte que a gente recobra rápido os sentidos e volta a reconhecer um rival como tem que ser. Vou folhear o livro “Piadas para zoar palmeirense” que ganhei, recentemente, de um aluno querido, e rever, com outros olhos, o vídeo do japinha, que é para me divertir um pouquinho: http://www.youtube.com/watch?v=HGWsqAOAElY&NR=1
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Droga, fiquei com dó do menino de novo...
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Campeonato de segunda categoria, é inegável. Como naquelas gincanas de TV aberta, ao estilo do lendário “Passa ou repassa”, a última prova decidiu tudo, como se valesse mais pontos que as brincadeiras anteriores. Porque, como diria o bom e velho Capitão Nascimento, os times este ano foram um bando de fanfarrões: brincaram de “cai, cai, balão”, de “vou, não vou”, mas, principalmente, brincaram com a cara do torcedor. Até o Botafogo deu um jeito de perder feio para o Grêmio e mandar, provavelmente, mais uma vez, o tricolor gaúcho (carrasco antigo) para a Libertadores de 2011. E o São Paulo, que nada fez o ano inteiro, conseguiu golear o Atlético-MG... uma piada este Brasileirão, uma piada de muito mal gosto.
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Só não foi pior porque deu Fluminense, que não ganhava há vinte e seis anos, e que, coincidentemente, é o time do meu pai. Na minha família – como já disse – ninguém gostava realmente de futebol, mas, por influência minha e do meu irmão, meu pai começou, certa época, a acompanhar os jogos conosco e a ativar o amor pela equipe das Laranjeiras. Na maioria das vezes, ele se deitava no chão e dormia a partida toda, acordando vez por outra com os meus gritos de fúria, alívio ou comemoração. Mas, nesse período, houve um domingo em que eu o vi muito feliz: foi quando o Fluminense ganhou o Campeonato Carioca sobre o Flamengo, com o inesquecível gol de barriga do Renato Gaúcho, em 1995. Então, por outro momento de felicidade do meu pai, talvez eu consiga ver certo sentido no resultado do Campeonato Brasileiro deste ano.
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Apenas mais uma coisa: nos últimos dois jogos, torcendo contra o Fluminense e o Cruzeiro, acabei vivenciando algo que jamais, em toda a minha vida, esperei que acontecesse: eu torci para o Palmeiras. Gritei “Porco!” e tudo, fiz um coraçãozinho com as mãos para o Dinei, quando marcou gol, na última partida. E – pasme! – fiquei emocionada com o vídeo do japinha, lamentando-se por nunca ver o “alviverde imponente” ganhar. Pois é. Sorte que a gente recobra rápido os sentidos e volta a reconhecer um rival como tem que ser. Vou folhear o livro “Piadas para zoar palmeirense” que ganhei, recentemente, de um aluno querido, e rever, com outros olhos, o vídeo do japinha, que é para me divertir um pouquinho: http://www.youtube.com/watch?v=HGWsqAOAElY&NR=1
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Droga, fiquei com dó do menino de novo...
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