Ainda me lembro de meu primeiro poema de Walt Whitman... entregue na praça, numa noite bonita de primavera, copiado com letra caprichada no verso de uma xérox da foto do poeta. Tornou-se um vício por muito tempo. Por muito tempo, aliás, namorei, da maneira mais terna, a literatura norte-americana, com seus beatniks, lagos e campos de centeio. Depois, porém, escolhi outras trilhas. Mas sempre pensei que, se me garantissem que os EUA têm ainda um quinto da poesia atribuída a eles nos poemas de Whitman, eu me mudaria para lá imediatamente.
Pois bem. Semanas atrás, falaram-me de John Steinbeck. E falaram de novo. E uma terceira vez, então numa livraria, quando percebi que aquilo só podia ser um sinal. O autor, que eu desafortunadamente não conhecia, integra o cânone literário norte-americano, foi Nobel em 1962, e escreveu obras como “A Leste do Éden” e “As vinhas da ira”, que espero ler em breve. Comecei, porém, por “Ratos e homens”, de 1937. Um livro de pouco mais de cem páginas, publicação da L&PM Pocket. Nada de mais, a princípio. Levei cerca de uma semana para concluí-lo, em minha tradicional leitura demorada, de saboreios e vésperas de sono. E, Deus, há muito tempo não chorava como ontem. Não que o choro sirva como medida para a qualidade de um livro, mas este, em particular, merecia... por ser simplesmente magnífico. As lágrimas representavam, mais do que o lamento pela triste trajetória dos personagens, o encanto por ter sido enredada em uma trama tão extraordinariamente construída, com tanta simplicidade, mas com uma maestria que só se revela no final, quando começamos a compreender os detalhes borrifados com discrição ao longo história. Claro, há, em toda adoração, algo de duvidoso. A grandiosidade do livro para mim relaciona-se a outras associações – como minha doce experiência com a literatura norte-americana ou a semelhança dos protagonistas com dois personagens comoventes de Akira Kurosawa, no filme “Dodes´ka-den” (1970), a que assisti recentemente. Mas há, sem dúvida, algo de fascinante em “Ratos e Homens”, de um fascínio tão puro, que só posso querer agora deitar-me sobre as “folhas de relva” e sonhar com o Mississipi.
(13/12/2010)
segunda-feira, 13 de dezembro de 2010
domingo, 5 de dezembro de 2010
Desconsiderações futebolísticas
Um time que não dá conta de ganhar da equipe reserva do Goiás simplesmente não merece o título. O Corinthians perdeu o Brasileirão – assim como os demais campeonatos que disputou este ano – por pura incompetência. Salários bilionários a craques do passado, importantes desfalques como a saída de Mano Menezes, fatídicas contusões... podem servir como desculpa, mas a verdade é que jamais apresentamos o futebol à altura de um campeão este ano. A partida de hoje serve como metonímia de nossa desorganização, da fé no acaso, da cega ingenuidade que nos alimentou ao longo do ano todo. O trágico vai ser sair na rua amanhã e ver o desfile azul dos vice – que, no fim, são tão perdedores quanto todos os outros – arrotando a arrogância típica das marias, falsos justiceiros recobrando os chorados três pontos perdidos naquela partida contra o time que, em outro momento, eu chamaria de Timão. Mas não dá para ficar triste. O Corinthians não merece isso hoje.
*
Campeonato de segunda categoria, é inegável. Como naquelas gincanas de TV aberta, ao estilo do lendário “Passa ou repassa”, a última prova decidiu tudo, como se valesse mais pontos que as brincadeiras anteriores. Porque, como diria o bom e velho Capitão Nascimento, os times este ano foram um bando de fanfarrões: brincaram de “cai, cai, balão”, de “vou, não vou”, mas, principalmente, brincaram com a cara do torcedor. Até o Botafogo deu um jeito de perder feio para o Grêmio e mandar, provavelmente, mais uma vez, o tricolor gaúcho (carrasco antigo) para a Libertadores de 2011. E o São Paulo, que nada fez o ano inteiro, conseguiu golear o Atlético-MG... uma piada este Brasileirão, uma piada de muito mal gosto.
*
Só não foi pior porque deu Fluminense, que não ganhava há vinte e seis anos, e que, coincidentemente, é o time do meu pai. Na minha família – como já disse – ninguém gostava realmente de futebol, mas, por influência minha e do meu irmão, meu pai começou, certa época, a acompanhar os jogos conosco e a ativar o amor pela equipe das Laranjeiras. Na maioria das vezes, ele se deitava no chão e dormia a partida toda, acordando vez por outra com os meus gritos de fúria, alívio ou comemoração. Mas, nesse período, houve um domingo em que eu o vi muito feliz: foi quando o Fluminense ganhou o Campeonato Carioca sobre o Flamengo, com o inesquecível gol de barriga do Renato Gaúcho, em 1995. Então, por outro momento de felicidade do meu pai, talvez eu consiga ver certo sentido no resultado do Campeonato Brasileiro deste ano.
*
Apenas mais uma coisa: nos últimos dois jogos, torcendo contra o Fluminense e o Cruzeiro, acabei vivenciando algo que jamais, em toda a minha vida, esperei que acontecesse: eu torci para o Palmeiras. Gritei “Porco!” e tudo, fiz um coraçãozinho com as mãos para o Dinei, quando marcou gol, na última partida. E – pasme! – fiquei emocionada com o vídeo do japinha, lamentando-se por nunca ver o “alviverde imponente” ganhar. Pois é. Sorte que a gente recobra rápido os sentidos e volta a reconhecer um rival como tem que ser. Vou folhear o livro “Piadas para zoar palmeirense” que ganhei, recentemente, de um aluno querido, e rever, com outros olhos, o vídeo do japinha, que é para me divertir um pouquinho: http://www.youtube.com/watch?v=HGWsqAOAElY&NR=1
*
Droga, fiquei com dó do menino de novo...
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Campeonato de segunda categoria, é inegável. Como naquelas gincanas de TV aberta, ao estilo do lendário “Passa ou repassa”, a última prova decidiu tudo, como se valesse mais pontos que as brincadeiras anteriores. Porque, como diria o bom e velho Capitão Nascimento, os times este ano foram um bando de fanfarrões: brincaram de “cai, cai, balão”, de “vou, não vou”, mas, principalmente, brincaram com a cara do torcedor. Até o Botafogo deu um jeito de perder feio para o Grêmio e mandar, provavelmente, mais uma vez, o tricolor gaúcho (carrasco antigo) para a Libertadores de 2011. E o São Paulo, que nada fez o ano inteiro, conseguiu golear o Atlético-MG... uma piada este Brasileirão, uma piada de muito mal gosto.
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Só não foi pior porque deu Fluminense, que não ganhava há vinte e seis anos, e que, coincidentemente, é o time do meu pai. Na minha família – como já disse – ninguém gostava realmente de futebol, mas, por influência minha e do meu irmão, meu pai começou, certa época, a acompanhar os jogos conosco e a ativar o amor pela equipe das Laranjeiras. Na maioria das vezes, ele se deitava no chão e dormia a partida toda, acordando vez por outra com os meus gritos de fúria, alívio ou comemoração. Mas, nesse período, houve um domingo em que eu o vi muito feliz: foi quando o Fluminense ganhou o Campeonato Carioca sobre o Flamengo, com o inesquecível gol de barriga do Renato Gaúcho, em 1995. Então, por outro momento de felicidade do meu pai, talvez eu consiga ver certo sentido no resultado do Campeonato Brasileiro deste ano.
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Apenas mais uma coisa: nos últimos dois jogos, torcendo contra o Fluminense e o Cruzeiro, acabei vivenciando algo que jamais, em toda a minha vida, esperei que acontecesse: eu torci para o Palmeiras. Gritei “Porco!” e tudo, fiz um coraçãozinho com as mãos para o Dinei, quando marcou gol, na última partida. E – pasme! – fiquei emocionada com o vídeo do japinha, lamentando-se por nunca ver o “alviverde imponente” ganhar. Pois é. Sorte que a gente recobra rápido os sentidos e volta a reconhecer um rival como tem que ser. Vou folhear o livro “Piadas para zoar palmeirense” que ganhei, recentemente, de um aluno querido, e rever, com outros olhos, o vídeo do japinha, que é para me divertir um pouquinho: http://www.youtube.com/watch?v=HGWsqAOAElY&NR=1
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Droga, fiquei com dó do menino de novo...
quarta-feira, 1 de dezembro de 2010
One
O que aconteceu comigo ontem,
eu jamais imaginara,
nem nos meus melhores sonhos,
nem naqueles que imitam
a busca do tempo perdido de Proust.
E mesmo que hoje,
como na velha canção,
o mundo tenha voltado
a andar complicado,
com tropeços e amargas surpresas,
vou inverter o conselho,
o provérbio,
e viver o ontem.
Porque ontem eu estava feliz,
tanto quanto
raras vezes me senti.
(01/12/2010)
eu jamais imaginara,
nem nos meus melhores sonhos,
nem naqueles que imitam
a busca do tempo perdido de Proust.
E mesmo que hoje,
como na velha canção,
o mundo tenha voltado
a andar complicado,
com tropeços e amargas surpresas,
vou inverter o conselho,
o provérbio,
e viver o ontem.
Porque ontem eu estava feliz,
tanto quanto
raras vezes me senti.
(01/12/2010)
sábado, 13 de novembro de 2010
Les Choses
Eu gosto de coisas. Não por acaso, admiro o temido – para muitos, execrável – Alain Robbe-Grillet, em sua primeira fase, a conhecida como “chosiste” (coisista). As coisas nos dizem: roupas, acessórios, livros, quadros, móveis, revistas em quadrinho, CD´s e DVD´s. E, às vezes, deixam de dizer. Algumas semanas atrás, uma colega de trabalho criticou os meus brincos. Na hora, fiquei irritada. “Será possível que, ao acordar, às 5h da manhã – o que, por si só, já é sofrimento suficiente –, eu ainda terei que pensar com calma na escolha do que penduro na orelha?” Dias depois, remexi o porta-joias: meus brincos realmente não tinham mais nada a ver com a “eu de hoje”. Já tiveram, claro, na minha fase hippinha. Mas isso ficou para trás e os brincos também deveriam ter ficado. Não tenho, porém, coragem de jogar as coisas fora, assim, a sangue-frio. Então peguei uma caixa bonita, e guardei ali os brincos que não mais me traduziam. Dei à senhora que lava a minha roupa, sempre tão cordial e caprichosa. Ela tem filhas e sobrinhas, e alguém poderia, quem sabe, gostar de alguma das bijuterias. E vi que tinha acertado quando, ao entregar a sacola de roupas limpas, a senhora veio acompanhada da filha, de uns oito anos... assim que abri o portão, a menina me esperava, com os braços na cintura, o peito estufado, como uma super-heróina, exibindo-me um par de brincos vermelhos, compridos, outrora meus, e um sorriso indescritível. Fiquei feliz por uma semana por causa daquilo. (...) Outra coisa que me faz pensar nas coisas: o supermercado. O Veríssimo (o Luís Fernando) já escreveu sobre como o lixo descreve nossas personalidades. Mas antes do lixo vem a lista de compras. É um dos meus passatempos favoritos: tentar adivinhar as rotinas por aquilo que as pessoas colocam no carrinho de compras. Dias atrás, entretanto, notei que estava sendo vítima do meu próprio veneno: o caixa que costumeiramente me atende, um moço bonzinho lá de Barbacena, começou a querer puxar conversa através dos itens na esteira. Primeiro foi o bolo que comprei no meu aniversário, as velinhas, a idade, se ia ter festa; depois, os sacos de pirulitos que distribuí para os meus alunos no centenário do Corinthians... e mais conversa, indo e vindo, assim, sucessivamente. Até que, para arrematar a curiosidade e calar as pretensões possivelmente amorosas do rapaz, comprei um vinho chileno e um par novo de taças. Seu olhar triste para a garrafa foi de dar dó. É, as coisas, por si mesmas, podem ser só coisas, mas como dão margem à imaginação...
*
Só para constar: duas semanas atrás, em Três Corações, minha madrinha contou que o Juninho (veja postagem anterior) sempre assiste aos jogos do Corinthians, e a chama: “Vem, Vó, vem ver, é o Corinthians. A Gelly deve estar lá torcendo, né?” Achei comovente. Resultado: dei a ele, no dia seguinte, a prometida camisa do Timão.
*
Todo mundo vai falar que não foi pênalti, que foi roubado, que o Corinthians – sabe-se lá por que – é o queridinho da mídia, da arbitragem, do governo, do Bope, da Interpol... Mas a gente ganhou. Estão lá os três pontos, vamos dormir na liderança, estamos felizes (assim como o Galo que, merecidamente, goleou o Luxemburgo). E, pelo menos por enquanto, como diz o filósofo James Hetfield, “nothing else matters”.
*
Só para constar: duas semanas atrás, em Três Corações, minha madrinha contou que o Juninho (veja postagem anterior) sempre assiste aos jogos do Corinthians, e a chama: “Vem, Vó, vem ver, é o Corinthians. A Gelly deve estar lá torcendo, né?” Achei comovente. Resultado: dei a ele, no dia seguinte, a prometida camisa do Timão.
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Todo mundo vai falar que não foi pênalti, que foi roubado, que o Corinthians – sabe-se lá por que – é o queridinho da mídia, da arbitragem, do governo, do Bope, da Interpol... Mas a gente ganhou. Estão lá os três pontos, vamos dormir na liderança, estamos felizes (assim como o Galo que, merecidamente, goleou o Luxemburgo). E, pelo menos por enquanto, como diz o filósofo James Hetfield, “nothing else matters”.
sábado, 30 de outubro de 2010
Juninho
A gente bem que tentou criar o menino, como o filho que não tivemos e que, juntos, jamais teremos – meu irmão e eu. Com pretensões didáticas, em cada visita à terra natal, nós o ensinávamos a jogar damas, xadrez e a usar desodorante. Chegamos mesmo, ao notar suas tendências flamenguistas, a chamá-lo para uma conversa séria, em que eu disse: “Você pode escolher entre o time que quiser, qualquer um... entre São Paulo e Corinthians.” Ele nos fitou, indeciso, e (eu sei, tenho mais cara de brava) acabou respondendo: “Corinthians.” “Então eu vou sustentar o seu vício.” E prometi uma camiseta que ainda não comprei, visto que não há vício nenhum ali além do vídeo game. E, quando dissemos, empolgados, que em breve teria início a Copa do Mundo, e que haveria futebol o tempo todo, por um mês de indizível felicidade, ele ficou desconcertado, querendo saber se o SBT continuaria exibindo a sua série favorita, “Supernatural”, a que ele assistia com a cachorrinha, a Sasha, com o medo que tinha do excitante sobrenatural. Há uma porção de narrativas sobre o Juninho, um arquivo gigantesco de fotos e uma sequência de vídeos (porque, todos os anos, nós o entrevistamos, para acompanharmos a mudança de seu ponto de vista sobre o mundo com o passar do tempo), mas a melhor história talvez seja a das contas matemáticas. Quando estava prestes a começar a 1ª série, decidimos ocupar o tempo de suas visitas frequentes à nossa casa ensinando-lhe as quatro operações básicas. E o menino, que sofria de déficit crônico de autoestima, passou a se orgulhar de si mesmo por conseguir fazer “contas de cabeça”. E com toda a razão, porque ele era bom nisso. Mas o que o incentivava era o que vinha junto com os números... Sabendo das preferências alimentares do garoto, a gente dizia: “Você tem vinte salgadinhos...” E ele, ansioso, perguntava: “Qual salgadinho?” “Coxinha. Aí ganha mais quinze...” Ele emitia uma série de gulosas interjeições, e respondia: “Trinta e cinco! Trinta e cinco coxinhas só pra mim!?” Acertava todas as adições, multiplicações, e, num tom mais melancólico, também as subtrações e divisões. Dias atrás, ele me falou que, agora com dez anos, é um dos melhores alunos da sala, e que isso é por causa daquele verão que passamos juntos, fazendo contas de cabeça. E, o melhor, quando me assistia ensinando as tais operações para o seu primo mais novo (só com algarismos, sem acréscimos alimentícios), ele, notando a dificuldade do menino, aconselhou: “Faz as contas com pão de queijo, Gabriel!” Ironia: da matemática, o que ele mais gostava era, no fundo, o sonho, o abstrato, o literário.
(30/10/10)
(30/10/10)
quinta-feira, 21 de outubro de 2010
Starts with you...
Faz mais de uma semana que voltei do SWU, em Itu – aquela reedição do Woodstock sobre a qual escrevi em julho neste blog – e ainda estou bendizendo diariamente o prazer de deitar na minha cama quentinha, com edredom e travesseiro. Porque, numa boa, ir a festivais só nos faz pensar no quanto seu formato deveria ser repensado. Claro que há algo sublime, meio wagneriano, nas proporções gigantescas do evento, com 160 mil pessoas, 74 atrações musicais, em uma fazenda, a céu aberto, no meio do nada... Tudo isso fora a ideia “starts with you” da coisa: é isso aí, vamos salvar o mundo! Estavam lá as lixeiras (cujo conteúdo seria quase integralmente reciclado), as exposições de arte, as frases de efeito no telão e as instalações interativas – como um labirinto construído com lixo prensado, bastante sugestivo. Mas o tempo fez questão de mostrar que o descaso de séculos com o planeta não vai ser revertido com três dias de festa supostamente consciente. O clima era de deserto: de dia, um sol insuportável, de queimar, arder e descascar a pele; à noite, o pior frio que eu já senti na vida. E olha que eu já senti frio! A sensação térmica chegou aos sete graus. Havia momentos em que eu torcia para que os shows acabassem logo ou para que alguém no palco me olhasse, ali, tremendo, sem agasalho, indefesa, e dissesse: “Por favor, alguém empreste uma blusa de lã pra essa menina! Um casaco de soft? Pode ser, pode ser.” Jamais vou me esquecer da madrugada congelante, durante o show do Linking Park (a que não assisti, ávida que estava por uma minipizza de oito reais, depois de doze horas sem comer), e da gentil senhora de Macapá, que, junto a três manauaras, enrolava-se em um cobertor cor-de-rosa que por alguns instantes me aqueceu também. E o ônibus da excursão só apareceria às 4 horas da manhã, porque algum playboy queria ver o show (?) do Tiesto. Outro inconveniente, aliás, é a mistura de públicos, que, com diferentes objetivos no mesmo lugar, não sabem respeitar o espaço do outro, vaiando bandas ancestrais como Yo la tengo, transformando brindes em pilhas de lixo, emporcalhando o já nojento banheiro químico. Porém, dramas à parte, o show perfeito do Queens of the Stone Age, o prazer indizível de assistir ao encontro dos irmãos Cavalera, a doçura do Pixies e, claro, o belíssimo (!) show do Incubus fizeram valer esses sacrifícios. E ano que vem tem mais... Anunciam-se Alice in Chains e o retorno das cinzas do System of a Down. Mas, desta vez, eu levo um poncho, um cachecol e uma garrafa de conhaque.
*
E por falar em Incubus, o vocalista, Brandon Boyd, que também é escritor e artista plástico, foi preso dias antes de embarcar para o SWU, ao encontrarem um canivete em sua bagagem de mão, no aeroporto de LaGuardia. Por coincidência, foi exatamente sobre o que me alertaram meus estimados alunos quando souberam que os acompanharia em uma viagem a Petrópolis (dois dias após voltar de Itu): “A viagem é de ônibus, mas os canivetes continuam proibidos.” Uma doce referência, óbvio, à minha linhagem corintiana. O passeio por Petrópolis foi memorável, é claro. Rendeu, por exemplo, o texto cujo trecho transcrevo a seguir, de autoria de Mateus Nardelli:
“Fedor, vômito, e uma eternidade assentado. Essas são as mais temidas sensações das viagens de ônibus, pelas quais a maioria das pessoas já passou.
Quem nunca usou um banheiro químico? Utilizar um banheiro no qual só se pode urinar. E essa urina fica acumulando na água até o produto químico a diluir. Não sei se vocês concordam comigo, é no mínimo nojento. Mas não é só a questão sanitária que traz insatisfações naquelas horas. O pior é chegar até lá. Essa arriscada epopeia que vivemos para nos aliviar é mais perigosa do que qualquer esporte radical. Uma única freada em momento errado e podemos transformar nosso simples instante de alívio em um traumatismo craniano e um cotovelo ralado. Não vamos nos esquecer da hora H, que para os homens é um emocionante jogo de tiro ao alvo e, às mulheres, um touro mecânico.”
E ainda me perguntam se gosto do que eu faço...
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E por falar em Incubus, o vocalista, Brandon Boyd, que também é escritor e artista plástico, foi preso dias antes de embarcar para o SWU, ao encontrarem um canivete em sua bagagem de mão, no aeroporto de LaGuardia. Por coincidência, foi exatamente sobre o que me alertaram meus estimados alunos quando souberam que os acompanharia em uma viagem a Petrópolis (dois dias após voltar de Itu): “A viagem é de ônibus, mas os canivetes continuam proibidos.” Uma doce referência, óbvio, à minha linhagem corintiana. O passeio por Petrópolis foi memorável, é claro. Rendeu, por exemplo, o texto cujo trecho transcrevo a seguir, de autoria de Mateus Nardelli:
“Fedor, vômito, e uma eternidade assentado. Essas são as mais temidas sensações das viagens de ônibus, pelas quais a maioria das pessoas já passou.
Quem nunca usou um banheiro químico? Utilizar um banheiro no qual só se pode urinar. E essa urina fica acumulando na água até o produto químico a diluir. Não sei se vocês concordam comigo, é no mínimo nojento. Mas não é só a questão sanitária que traz insatisfações naquelas horas. O pior é chegar até lá. Essa arriscada epopeia que vivemos para nos aliviar é mais perigosa do que qualquer esporte radical. Uma única freada em momento errado e podemos transformar nosso simples instante de alívio em um traumatismo craniano e um cotovelo ralado. Não vamos nos esquecer da hora H, que para os homens é um emocionante jogo de tiro ao alvo e, às mulheres, um touro mecânico.”
E ainda me perguntam se gosto do que eu faço...
domingo, 10 de outubro de 2010
E não é que foi bom!?
É, galera, e eu fui a São Paulo ver o Bon Jovi esta semana. E o Bon é bom, naquilo que se propõe a fazer – sejam baladas grudentas, refrões otimistas ou cantadas a repórteres femininas. Mas havia outros significados em estar ali, mais uma vez no “La Bambinera”, espremida entre sessenta mil pessoas que gritavam histericamente a cada vez que o telão exibia o sorriso cheio de dentes desse moço (sic) de New Jersey. A verdade é que o Bon Jovi, por causa da “Always”, foi quem abriu as portas para as outras bandas de rock na minha vida. Parece piada, mas, quando ouvi pela primeira vez um CD inteiro dele, percebi, estarrecida, no auge dos meus magrelos 11 anos, que eu gostava das músicas “pesadas” – e você entenda com generosidade o peso no Bon Jovi, claro. E foi para aprender as letras dele que decidi estudar inglês. E o elegi como ídolo – a ser substituído, pouco tempo depois, pelo simpático Eddie do Iron Maiden –, desses pelos quais a gente chora, pensando na injustiça da vida que fez impossível o encontro de vocês. Foi, sim, para provar a essa menina de 11 anos, do interior de Minas, que, em certa medida, encontrar o Bon Jovi não era impossível, que embarquei na missão “Bon: o som da sexta série”. O outro motivo foi o imenso prazer de estar lá com meus amigos de colégio, que dividiram comigo a febre “I´ll be there for you” one of “these days”. A terceira razão é, óbvio, o espírito de aventura. Acho que, se tivesse ganhado, em um desses concursos de rótulo de margarina, o direito de ser levada ao concerto por um helicóptero, que me buscaria em casa e me deixaria lá, no camarote VIP da Globo, não teria sido tão legal. Ir direto do trabalho para o aeroporto, pegar em Guarulhos uma carona com uma santa desconhecida do interior do Espírito Santo... aí entrar num táxi com três recifenses (tão desconhecidos quanto) torcedores do Sport (que ficavam recordando a Copa do Brasil que ganharam sobre o Timão)... depois encontrar meus amigos de TC – que estavam com o meu ingresso! – na porta do estádio (o melhor abraço de toda a minha vida)... e sair de três horas intensas de show para o aeroporto e do aeroporto para o trabalho (quase a lei do eterno retorno)... Isso, sim, foi o show do Bon Jovi. Quase como descreveria o galã, se isso fosse uma canção: “Hey, man, I´m alive, I´m taking each day and night at a time. I´m feeling like a Saturday night” em plena quarta-feira gorda. E que venha, daqui a pouco, o SWU!
(10/10/10)
(10/10/10)
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