Texto bonito de um grande amigo: http://oalbergue.blogspot.com/2011/07/balanco-ensaio-sobre-um-motivo.html
domingo, 14 de agosto de 2011
quarta-feira, 3 de agosto de 2011
Olê, olê, olê, olê, olê, olê, olá… Olê, olê, olê, cada día te quiero más…
Uns dias antes de viajar, eu acordava no meio da noite e pensava: “por que é que eu falei que eu ia?”, puxava o edredom sobre a cabeça e me sentia ainda mais invejavelmente confortável – invejável para mim mesma, que já projetava dias de frio intenso num futuro próximo. Mas que bom que eu vim. Ainda faltam, felizmente, alguns felizes dias para que esta viagem de quase um mês chegue ao seu final. Contudo, há acontecimentos que já a colocam entre as primeiras no ranking de melhores viagens de todos os tempos, quiçá da humanidade! Porque há, pelo caminho, sempre dissabores, muitas vezes corporificados em seres humanos, que impedem a perfeição das coisas. Ao mesmo tempo, porém, frequentemente são os mesmos seres humanos que enfeitam certos momentos ou que solucionam certas ameaças de desastre. Tudo muito ao acaso, que é um dos maiores prazeres de viajar: tropeçar na circunstância seguinte. Desta vez, por exemplo, houve a encantadora coincidência de estar em Montevidéu justamente no dia da conquista da Copa América pelo Uruguai. Foi delicioso asistir à partida com os uruguaios, gritar “¡Uruguai, no más!” e sair caminhando junto à multidão pela La Rambla, com um litro de “Patrícia” na mão, até o fatídico estádio Centenário, esperar pela chegada dos jogadores vitoriosos. Ventava tanto e fazia tanto, tanto frio, que a gente torcia para que alguém tivesse a brilhante ideia de começar uma ola, só para se movimentar um pouquinho. Foram mais de quatro horas de espera, em que eu simplesmente não acreditava na minha sorte, no precioso fato de estar ali, exatamente ali, exatamente naquele dia. Indescritível a minha tristeza quando, às duas da manhã, o grupo com que eu estava resolveu desistir e ir para casa, pobres mortais que teriam que trabalhar na manhã seguinte. Eu ainda cogitei ficar por lá sozinha, mas o instinto de sobrevivência falou mais alto. Os jogadores chegaram só duas horas depois, e isso nós ouvimos pelo rádio do carro de uma moça de coração bom que nos buscara na rodoviária, onde dormíamos, depois de andar por quase uma hora, já que a cidade era o puro caos naquela madrugada gelada, quando não havia táxi ou ônibus para voltar para casa. Haveria ainda muita aventura pela frente, é claro, encontros inacreditáveis e um presente que eu me dei e que guardei em segredo, com um medo enormemente justificado de que não se concretizasse: eu fui a Buenos Aires só e somente para ver o show do Anathema. Os detalhes eu contarei repetidas vezes nos próximos dias, mas vale adiantar que, chegando ao teatro às duas da tarde, conheci um grupo de roqueiros adoráveis, que me avisaram da iminente chegada da Anneke, que abriría o show dos ingleses, e com quem tive novamente a oportunidade de conversar e tirar fotos. A Anneke, vocês sabem, faz com que a gente queira ser uma pessoa melhor. Depois houve uma tarde inteira na fila, um telefonema emocionado de quem não acredita que a felicidade possa ser tão real, e a desastrosa descoberta de que eu só conseguiria assistir ao concerto se atravessasse metade da cidade atrás do bilhete, que eu havia comprado pela internet, mas que não resgataria na bilheteria onde estava. Sabe como é: eu não tenho livre arbitrio, a vida é que sempre escolhe por mim a modalidade “com emoção”, que é, de fato, a mais emocionante. Bem, mas deu certo, outra pessoa de bom coração e minutos contados no relógio do táxi depois, lá estava eu, na primeira, primeiríssima fila, em uma plateia que parecia uma torcida organizada, assistindo ao Anathema, ao Anathema… banda que quase havia visto no Brasil um par de vezes, que me arremessa a uma série de memórias, de paisagens, de pessoas e trajetos. Foi lindo: estar tão perto do palco que o guitarrista me sorria, talvez admirado com o tamanho da minha alegría. Ao final do concerto, eu estava “re feliz” e sentia pena dos dias que se seguiriam àquele… pobres dias, pensava eu, que nunca seriam tão bonitos. Mas – que sorte, ¡mirá vos! – eu estava enganada. (03/08/2011)
quarta-feira, 13 de julho de 2011
The boy done wrong again
Tenho um piano. Grande, marrom, como um elefante. Foi fabricado em 1810 e devo conseguir um bom dinheiro por ele se algum dia tentar vendê-lo a um antiquário – ou o antiquário o conseguirá, depois de inventar uma boa história sobre seu país de origem e seu primeiro dono. Enfim, tenho um piano, mas ele está a quilômetros de distância de mim, na casa onde passei minha infância e onde, durante a adolescência, arrisquei algumas Invenções de Bach e uma sonata de Mozart – aquela em Dó Maior. Há anos não toco sequer uma escala com as duas mãos. A vida vai se afunilando e, um belo dia, somos especialistas em especialidades especialíssimas nas quais apenas outros especialistas especiais e específicos estão interessados. E fica no álbum fotográfico o arco-íris que a gente chegou a ser um dia.
Mesmo assim, tenho ciúmes do meu piano. Sempre que o visito (por tabela), tiro o pó da madeira, das teclas e dos porta-retratos que minha mãe colocou sobre ele. E digo aos meus priminhos curiosos que o piano está trancado, embora nunca tenha tido uma chave. As pequenas e delicadas mãos deles se transformam em dolorosos martelos quando tocam meu piano. E os convenço a procurarem peixinhos no aquário vazio da sala de jantar. Um dia nós tivemos lindos peixes, diversos, de várias cores e com nomes de pessoas famosas. Hoje o aquário vive a saudade de seus velhos tempos, enquanto serve de suporte para begônias e violetas.
O piano, então, ficou mudo. Se ninguém o toca, ele nada fala, nada canta, nada declama. O piano enfeita a sala de visitas, com a imponência de quem pertenceu a Napoleão Bonaparte, e o silêncio de quem perdeu, por causa do imenso funil das especializações, as mãos brancas que o acarinhavam, assim, sem jeito.
Mudas também ficariam as folhas, se o vento não as movimentasse. E a cascas de semente de sibipiruna, se não pisássemos nelas para ouvir sua voz onomatopaica, no meio do outono. E os livros, se os mantivéssemos fechados. Madame Bovary ainda estaria viva, mas Werther nunca me teria feito chorar.
Meu piano é uma caixa de madeira que guarda as mais belas canções. E nunca irei ouvi-las dele se não atravessar os tantos quilômetros que nos separam e desamassar as partituras certas. Assim também são as pessoas. Algumas delas seriam as melhores convidadas para as festas das quais não foram avisadas. As melhores mães, cujos ventres não foram fecundados. Os melhores escritores que ainda assinam o nome com a impressão digital borrada do polegar. Os melhores amantes que não receberam o telefonema no dia esperado. Porque às vezes há, do lado de dentro, tanta cor e tantas fragrâncias à espera apenas de um olhar mais corajoso, dos dedos certos no teclado, uma seqüência adequada de números, notas organizadas com cuidado em um par de versos brancos.
Vezes em que somos como meu piano: esperando que arranquem de nós a canção mais triste para que possamos assim nos sentir um pouco menos miseráveis, desperdiçados, mudos.
PS.: ESTE RELATO É DE QUASE CINCO ANOS ATRÁS, MAS, DIA DESSES, MOSTREI A UM AMIGO QUERIDO, QUE ME INCENTIVOU A GOSTAR DESSE TEXTO DE NOVO... http://oalbergue.blogspot.com/
Mesmo assim, tenho ciúmes do meu piano. Sempre que o visito (por tabela), tiro o pó da madeira, das teclas e dos porta-retratos que minha mãe colocou sobre ele. E digo aos meus priminhos curiosos que o piano está trancado, embora nunca tenha tido uma chave. As pequenas e delicadas mãos deles se transformam em dolorosos martelos quando tocam meu piano. E os convenço a procurarem peixinhos no aquário vazio da sala de jantar. Um dia nós tivemos lindos peixes, diversos, de várias cores e com nomes de pessoas famosas. Hoje o aquário vive a saudade de seus velhos tempos, enquanto serve de suporte para begônias e violetas.
O piano, então, ficou mudo. Se ninguém o toca, ele nada fala, nada canta, nada declama. O piano enfeita a sala de visitas, com a imponência de quem pertenceu a Napoleão Bonaparte, e o silêncio de quem perdeu, por causa do imenso funil das especializações, as mãos brancas que o acarinhavam, assim, sem jeito.
Mudas também ficariam as folhas, se o vento não as movimentasse. E a cascas de semente de sibipiruna, se não pisássemos nelas para ouvir sua voz onomatopaica, no meio do outono. E os livros, se os mantivéssemos fechados. Madame Bovary ainda estaria viva, mas Werther nunca me teria feito chorar.
Meu piano é uma caixa de madeira que guarda as mais belas canções. E nunca irei ouvi-las dele se não atravessar os tantos quilômetros que nos separam e desamassar as partituras certas. Assim também são as pessoas. Algumas delas seriam as melhores convidadas para as festas das quais não foram avisadas. As melhores mães, cujos ventres não foram fecundados. Os melhores escritores que ainda assinam o nome com a impressão digital borrada do polegar. Os melhores amantes que não receberam o telefonema no dia esperado. Porque às vezes há, do lado de dentro, tanta cor e tantas fragrâncias à espera apenas de um olhar mais corajoso, dos dedos certos no teclado, uma seqüência adequada de números, notas organizadas com cuidado em um par de versos brancos.
Vezes em que somos como meu piano: esperando que arranquem de nós a canção mais triste para que possamos assim nos sentir um pouco menos miseráveis, desperdiçados, mudos.
PS.: ESTE RELATO É DE QUASE CINCO ANOS ATRÁS, MAS, DIA DESSES, MOSTREI A UM AMIGO QUERIDO, QUE ME INCENTIVOU A GOSTAR DESSE TEXTO DE NOVO... http://oalbergue.blogspot.com/
terça-feira, 5 de julho de 2011
Melhor deixar para envelhecer mais tarde...
Quando assisti a “Alta Fidelidade”, fiquei com mania de listas. E lembro que, naquela época, na lista de “melhores profissões do mundo”, escrevi: vocalista do The Gathering. Na verdade, eu queria era ser a Anneke van Giesberg, mas, como isso não era profissão... Pois bem: algum tempo depois, meu irmão me recebeu em casa com o seguinte comentário: “Lembra daquela sua lista de profissões? Você terá a chance de realizar o seu sonho.” Era um eufemismo bem-humorado para me dizer que a minha querida, adorada vocalista deixaria a minha querida, adorada banda favorita. Já escrevi sobre isso antes, e não há razão para me estender sobre o assunto agora. O que acontece de novo nesse cenário é que, nesse final de semana, fomos a São Paulo, assistir, pela primeira vez no Brasil, à apresentação do The Gathering com os novos vocais: Silje Wergeland. Mas, antes: São Paulo, que vale por si só, pelo cinza, pela Avenida Paulista, pelo MASP com uma vídeo-exposição belíssima de Yann Arthus-Bertrand, além do acervo “Romantismo”, que é mesmo apaixonante. E, antes ainda, meu irmão, que também vale por si só, espécime raro de inteligência e bom gosto. A gente se perde de tal maneira nas nossas conversas que, apesar de termos chegado com uma hora de antecedência à rodoviária na noite de sábado, só não perdemos o ônibus, que partia apressado às 23h45 em ponto, porque eu corri e gritei, fazendo com que alguém o parasse. Tudo isso porque nós estávamos comentando um filme de Walter Salles... Bem, mas vamos ao show, que é o tema deste post. Foi bonito, viu? Uma casa de eventos pequena, duas centenas de pessoas, talvez, e muita devoção. Foi tocante a maneira como tanto o grupo holandês quanto o público brasileiro pareceram acolher a nova vocalista, que carrega o peso gigantesco de substituir uma vocalista, que é simplesmente o símbolo vivo do carisma. Ainda não deu para entender o que a moça espera, com o cabelo e as roupas idênticas à de Anneke no DVD “A sound relief”. Os trejeitos, os movimentos, também, em muitos momentos, remetiam à antiga cantora. Porém, mais delicada, com a voz mais suave e sua beleza particular, a moça bem que poderia deixar de vez a tentativa de ser o “cover” que sempre soa a frustração. Porque, quando consegue se desamarrar das imitações, Silje mostra que tem talento e luz própria. O show, com duas canções inéditas, três do último álbum – “The West Pole” e uma porção das antigas e mais pesadas do grupo – como “Eleanor” e “Shot to pieces” – agradou à maioria e terminou com a inacreditavelmente bela “Travel”, que, ao vivo, é mesmo de chorar. Bem, terminou, terminou não. Porque, aparentemente, a saída de Anneke fez com a banda se motivasse a ser mais extrovertida e se rendesse às atenções do público após o concerto. Muito marmanjo saiu de lá encantado com a baixista, Marjorlein Bastin, que desceu do palco para tirar fotos, distribuir autógrafos e até discutir a qualidade da cerveja brasileira com os fãs. Eu me fantasiei, sem o menor pudor, de tiete, e consegui o autógrafo de todos – todos! – os integrantes da banda, além de várias fotos, alguma conversa fiada e a palheta, que o guitarrista, René Rutten, entregou diretamente na minha mão. Ele, muito simpático, mostrou-se lisonjeado ao saber que havíamos passado quase dez horas viajando de ônibus, madrugada gelada afora, só para vê-los – e, pior, que não era a primeira vez que fazíamos isso. E precisa dizer que eu faria tudo de novo amanhã mesmo se fosse possível?!
(05 de julho de 2011)
(05 de julho de 2011)
domingo, 26 de junho de 2011
Roça n´Roll – (porque não pode haver título melhor)
Dez anos me separam do meu primeiro Roça n´Roll, quando dancei alucinada e inesquecivelmente ao som da então promissora Tuatha de Dannan. Naquela noite, choveu. Houve lama, vento gelado e microfones que davam choque. E houve também longas conversas num balanço de criança e o amanhecer mais bonito que já vi: com o voo ininterrupto de centenas de garças, brotando sabe-se lá de onde, em direção ao sol. Talvez por isso – mais pela poesia do que pelo amadorismo –, tenha criado coragem para retornar ao evento este ano, trazendo, a tiracolo, um amigo belo-horizontino que não gosta muito de metal, e meu irmão, tradicional companheiro de aventuras. Viajamos ao som de canções de poucas notas e muitas sutilezas; depois experimentamos os pontos turísticos de Três Corações, que se resumem a prazeres alimentícios com o nome de seus criadores – como “X-tudo do Valdir” e o “açaí do Igor” – e nos deslocamos até Varginha. Ou quase. Porque os shows aconteceram numa fazenda no meio do trajeto, com placas que não indicavam a direção, mas que surgiam apenas quando você já estava, por dedução, no caminho certo. No entanto, era já possível adivinhar o percurso, devido aos mata-burros, à poeira, ao céu estrelado e, à medida que nos aproximávamos, ao som pesado, claro. A primeira coisa em que a gente pensa quando chega, num inverno absolutamente gelado, a um lugar no meio do nada, cheio de metaleiros juvenis que passaram o dia inteiro bebendo e que agora estão capotando sobre a grama, é: o que é que estou fazendo aqui? A pergunta que vem em seguida seria o que pensam os pobres nativos ao assistirem àquele bizarro desfile de tachinhas e roupas pretas? De minha parte, porém, é rápido o período de transição entre a perplexidade e a euforia. Primeiro, porque começam a aparecer os velhos conhecidos, com seus sobretudos e cabelos compridos; segundo, porque as bandas de black metal são muito engraçadas, e não dá tempo de pensar em mais nada. Além disso, poucas queixas se podem fazer ao evento este ano, que se organizou bem ao formato de um SWU ou afins, com tendas variadas, dois palcos grandes – entres os quais, as atrações se revezavam – e a tentativa de conscientizar o público acerca da proteção do meio ambiente – a começar, por exemplo, pela esdrúxula marca de cerveja à venda, a Ecobier. E, dentre as grandes atrações, tocou o Genocídio, banda brasileira das antigas, com apenas um integrante da formação original. A Tuatha fez um show melancólico, ao estilo de quem “morreu e se esqueceu de deitar”, mas ainda cheio de fãs, de certa forma esperançosos... Foi empolgante a apresentação de André Matos, com canções de seu novo projeto, além de hits do Viper e do Angra (sim, ainda é emocionante cantar “Carry on”, mesmo que a letra nem faça mais tanto sentido). O grande momento da noite, pelo qual a maioria de nós estava lá, no entanto, foi o doom metal dos ingleses do Cathedral. Primeira e última apresentação no Brasil – não apenas porque o público, àquela hora da madrugada, era formado por um bando de zumbis –, mas também porque o grupo encerra sua carreira este ano, depois de uma dezena de excelentes discos de estúdio, com capas ao estilo de Hieronymus Bosch. A performance psicodélica, o som extremamente alto, a potência lenta da bateria... simplesmente perfeitas quando se espera que um show mude as coisas de lugar dentro d´a gente. Depois veio o som belíssimo da guitarra de Eduardo Ardanuy, do Dr. Sin. Mas aí nossos pés já estavam congelando, e a gente veio para a casa. O evento, que completou este ano sua 13ª edição, começa a entrar para a História dos festivais do rock na América Latina. E, cada vez menos artesanal, compensou a poeira e os poucos graus de temperatura no meio do nada.
(26 de junho de 2011)
(26 de junho de 2011)
quinta-feira, 16 de junho de 2011
O ser e o nada
Há coisas que só acontecem comigo. Um amigo disse que eu nasci errada. Maldade. Talvez “gauche”; errada, não. Mas isso que vou narrar aconteceu há muito tempo, quando eu tinha 13 anos e tendências suicidas – como muitos que, àquela época, sentiam ainda o peso da morte recente do vocalista do Nirvana. Eu estudava em um colégio público, pela manhã; e me intrigava pensar que “a minha carteira” seria, à tarde, ocupada por outra pessoa e, à noite, ainda por uma terceira. Foi então que, um dia, apareceram aquelas frases melancólicas rabiscadas ali, na tal carteira, a lápis. Depois, vieram os desenhos tétricos. Fiquei empolgada. Comecei a interagir com o indivíduo, fosse quem fosse, a comentar as frases, desenhar também minhas caveiras com serpentes e espadas – sim, bem ao estilo tatuagem de presidiário. A pessoa, que compartilhava da minha insanidade, gostou da ideia, e começamos a escrever ali bilhetes diários, a discutir bandas de rock – ele gostava de Pink Floyd – e a compartilhar teorias pessimistas. Durou pouco tempo aquilo, mas como era excitante acordar e saber que, no colégio, além das aulas, haveria a carteira e o que ela tinha a me dizer. Aconteceu que o indivíduo – que vou chamar aqui de A., no intuito de respeitar privacidades – passou a estudar pela manhã, na mesma sala que eu. Resultado: nos tornamos amigos. Não sei dizer quando nem como nos apresentamos. Sei que foi assim, simples, natural. E quantas aulas nós passamos conversando. (Sim, porque, em uma escola pública no interior, passar a aula batendo papo é absolutamente inofensivo para o seu desempenho escolar.) Eu puxava uma cadeira e ia me sentar ao lado dele, no fundo da sala. E nós falávamos de rock, literatura, filosofia, nossas famílias e relacionamentos e amigos em comum. Tínhamos, diga-se de passagem, o mesmo guru intelectual, que nos emprestou nossos primeiros romances existencialistas e gravou para nós as canções dos Smiths e do Velvet Underground. Mas A. gostava era de Prodigy, Radiohead e R.E.M. E de camisas xadrez, mesmo sem pensar no grunge. Foi assim por anos: essa amizade cheia de afinidades e boas discussões, em que eu ficava ali admirando a crueza do olhar dele para as coisas e o jeito dele de dizer “Sartrê”. Só isso, mais nada. Depois nós crescemos – ele, mais do que eu. E nos tornamos pessoas diferentes das que éramos. Então, dias atrás, ele colocou no MSN: “Nada mais será tão simples.” E eu pensei num monte de coisas, e nessa amizade também. E, durante esta semana, suspirei muitas vezes ouvindo o eco desse vaticínio: “nada mais será tão simples.”
(16 de junho de 2011.)
(16 de junho de 2011.)
terça-feira, 7 de junho de 2011
A fine day to exit
Na semana passada, deixei o Colégio onde trabalhei por mais de cinco anos. O motivo foi justo: poder acordar depois do sol, caminhar sob ele nas manhãs suaves de outono e, sobretudo, estudar. Eu sou uma nerd disfarçada de metaleira; não dá mais para esconder esse fato. E eu sabia que seria difícil dizer adeus aos meus meninos. Passei os dias anteriores admirando-os em silêncio, levando-os gratuitamente para passear no pátio, vendo-os correr e se orgulhar das próprias produções de texto, achando bonito o jeito deles de apagar com paciência os erros gramaticais no caderno. Eu os fui deixando aos poucos, convencendo-me de que seria o melhor, de que suportaria a falta, de que logo eles me esqueceriam. Mas jamais imaginei que não me deixariam sair assim, impune. Primeiro foi um abraço, de uma colega-amiga, choroso e longo. Então ela me pegou pelo braço e disse: “Eu te levo.” Já dava para ouvir os barulhos, como um viveiro cheio de pássaros silvestres. E ela foi me conduzindo escada abaixo. E pude vê-los aos pouquinhos, dezenas, centenas de todos aqueles meninos por tanto tempo tão meus. Sinceramente, cá entre nós: eu me senti uma popstar. Eram câmeras e gritos e aplausos e o meu nome, repetidas vezes o meu nome. Depois, claro, veio o hino do Corinthians, sagrado. Foi uma alegria tão forte que eu não soube chorar. A cada passo, era um presente, um abraço, um apelo. Uma menina ruiva, como a do Charlie Brown, disse: “Você não vê? Todas essas pessoas te adoram! E você vai trocá-las pelo quê? O que pode ser mais importante do que isso?” Sem palavras, eu só sorri. Depois comi uma fatia de um dos cinco bolos confeitados, acreditei na sorte e declarei amor. Ainda houve um vaso de flores, que está perfumando a casa até hoje, um bilhete bonito na agenda, que o aluno – oh, só! – esfregou no coração antes de me entregar, um jantar maravilhoso com os professores, tão carinhosos... e houve, claro, aquele caderno. Passei toda a tarde de terça chorando sobre ele: ali estavam bilhetes de todos os meus alunos e colegas. E eu nunca li palavras tão lindas... sobre lutas e méritos, sobre “desalgemar” os espíritos para a beleza da literatura, sobre não poder reter para sempre as pessoas que amamos. Há dias na vida que, definitivamente, fazem valer a pena todos os outros.
(07/06/2011)
(07/06/2011)
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